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Sexta, 29 de agosto de 2025

O "segundo grande quinteto" de Miles Davis

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Os estudiosos e historiadores do jazz podem divergir, até hoje, sobre a qualidade musical intrínseca da arte pianística de Cecil Taylor ou sobre a multifonia totalmente livre dos derradeiros sopros de John Coltrane (1926-67). Ou sobre a fase final da carreira de Miles Davis (1926-1991), na qual o mitológico trompetista optou por promover happenings sonoros em que a batida e as distorções dos bateristas e guitarristas vindos do planeta do rock abafavam o sopro sublime do mestre do cool jazz, de Miles ahead (1957) e de Kind of blue (1959).

Mas há um consenso generalizado de que o quinteto de Miles integrado por Wayne Shorter (sax tenor), Herbie Hancock (piano), Ron Carter (baixo) e Tony Williams (bateria) – o chamado “segundo grande quinteto”, sucessor daquele com Coltrane (sax tenor), Red Garland (piano), Paul Chambers (baixo) e Philly Joe Jones (bateria) – foi um dos mais criativos e influentes conjuntos de toda a história do jazz.

Entre os dias 20 e 22 de janeiro de 1965 – há 50 anos, portanto – o “segundo quinteto” de Miles Davis gravou, para o selo Columbia, o LPE.S.P., o primeiro de uma série de quatro registros que constituem o cream of the crop da obra madura do trompetista, iniciada com a gravação de Kind of blue. Os outros três discos antológicos do quinteto que desenvolveu a concepção modal, climática, pontilhista daquela obra-prima de 1959 foram, pela ordem, Miles smiles (outubro de 1966), Sorcerer (maio de 1967) e Nefertiti (junho-julho de 1967).

O 50º aniversário de E.S.P. pode (e deve) ser celebrado pelos jazzófilos com a (re)audição do álbum cuja faixa-título (5m25) é da pena de Wayne Shorter, assim como Iris (8m25). O pianista Herbie Hancock assinou Little one (7m20), e o baixista Ron Carter dividiu com Miles a autoria de Eighty one (6m10), R.J. (3m55) e Mood (8m50).

No referencial Jazz/The Rough Guide (Ed. 1995), Ian Carr escreveu: “A partir de 1965, Davis e seu grupo começaram a aperfeiçoar um novo modo de tocar que veio a ser chamado de 'time-no changes'. Ou seja, uma forma de abstração na qual a improvisação acontecia em tempo regular, mas sem harmonias preconcebidas. Havia temas compostos, o grupo tocava em 4/4 ou ¾ em tempos variados, mas, depois da exposição do tema, o solista, o pianista e o baixista ficavam livres para escolher as notas e os acordes que quisessem”.

Vale assinalar que Miles – então com 38 anos - escolheu para formar o “segundo grande quinteto” músicos que começavam a brilhar (rising stars), todos mais jovens do que ele. No início de 1965, Shorter, o mais “velho”, tinha 31 anos. Carter, Hancock e Tony Williams tinham, respectivamente, 27, 25 e 19 anos.

Além de E.S.P. Iris, do primeiro álbum do conjunto, de janeiro de 1965, tornaram-se joias do repertório jazzístico os seguintes temas:OrbitsDolores e Footprints, composições também de Shorter, do LP Miles smilesThe sorcerer (Hancock) e Masqualero (Shorter), deSorcerer; a faixa-título do álbum Nefertiti e Pinnochio, ambas igualmente do sempre inspirado e prolífico Wayne Shorter.

Registre-se, para concluir, que do “segundo grande quinteto” de Miles estão ainda vivos e ativos Shorter, Hancock e Carter. E que o grande saxofonista-compositor lidera, desde 2001, o quarteto inicialmente batizado de Footprints, integrado pelos eminentes Danilo Perez (piano), John Patitucci (baixo) e Brian Blade (baixo). No ano passado, o Wayne Shorter Quartet foi, uma vez mais, eleito o jazz group nº 1 do jazz no 62º referendo anual dos críticos promovido pela revista Downbeat.