Jim Hall e Charlie Haden: uma dupla imortal 

O guitarrista Jim Hall morreu, aos 83 anos, em dezembro de 2013; o contrabaixista Charlie Haden em julho último, aos 76 anos. Ambos foram jazzmen excepcionais, mestres em seus respectivos instrumentos, e receberam em vida, solenemente, o cobiçado título de jazz master concedido pela National Endowment for the Arts. O primeiro em 2004; o segundo em 2012.

Técnica impecável, harmonias sutis e fraseado elegante fizeram de Hall o músico ideal para integrar dois refinados conjuntos que deixaram marca indelével na história do jazz, na segunda metade da década de 1950: o quinteto do baterista Chico Hamilton e o trio do clarinetista Jimmy Giuffre. Em 1962, o guitarrista acompanhou Sonny Rollins na volta do Saxophone Colossus aos estúdios (The bridge, RCA), e foi parceiro do pianista Bill Evans no celebrado álbum Undercurrent (Blue Note). Nos anos seguintes gravou uma série de duos com os melhores baixistas da cena jazzística, destacando-se a sessão que gerou Alone togheter (Milestone, 1972), com Ron Carter, e o CD Jim Hall & Basses (Telarc, 2001), uma série de faixas, tête-à-tête, com Dave Holland, George Mraz. Scott Colley, Christian McBride e Charlie Haden.

Este último, por sua vez, depois de se afirmar como vanguardista, no início da década de 1960, ao lado de Ornette Coleman – sobretudo no emblemático Free Jazz (Atlantic, 1960) – enriqueceu sua discografia com primorosos duetos, dos quais merecem realce a sessão com o guitarrista Pat Metheny (Beyond the Missouri sky, Verve, 1992) e o encontro de 2007 com o pianista Keith Jarrett, documentada nos álbunsJasmine e Last dance, só lançados pela ECM em 2010 e no corrente ano, respectivamente.

Charlie Haden escreveu, não me lembro mais quando e onde: “Antes da música era o silêncio, e o formato dueto permite que se crie a partir do silêncio de um modo muito especial”.

A sentença aplica-se, “de um modo muito especial”, ao CD Charlie Haden-Jim Hall (Impulse-Blue Note), já disponível nas lojas virtuais, e que é um registro póstumo e inédito de uma performance dos dois mestres, a sós, em 1990, no palco do Festival Internacional de Jazz de Montreal, Canadá.

As oito faixas do álbum somam cerca de 75 minutos de diálogos musicais intimistas, com algumas introduções a capella e pequenos solos. As quatro cordas do baixo não “acompanham” as seis da guitarra, ou vice-versa. Elas se entrelaçam, harmoniosamente, no desenvolvimento da temática escolhida, com o devido respeito àquela pulsação anímica característica do jazz.

Os temas tratados no disco são os seguintes: Bemsha swing (8m30), de Thelonious Monk; Turnaround (9m30), de Ornette Coleman; os standards Body and soul (11m) e Skylark (9m20); First song (8m50) e The moment (7m), de Charlie Haden; Down from Antigua (12m) e Big blues (9m15), de Jim Hall.

Para concluir, vale transcrever a reação de Pat Metheny à primeira audição deste CD póstumo do duo Haden-Hall: “Que deleite é ouvir dois dos meus herois e meus dois favoritos parceiros em matéria de dueto tocando num cenário como este! Este é um disco para sempre”. 

“A ARTE DE ZOAR”

Neste sábado (29/11), às 15h, na livraria-café Arlequim (Praça Quinze, bem no Centro do Rio), a Companhia Estadual de Jazz (CEJ) apresenta uma performance multimídia que alia o samba jazz ao humor gráfico. Para quem não sabe, o chargista-humorista Reinaldo, também craque no contrabaixo, é integrante do quarteto CEJ, ao lado de Sergio Fayne (piano), Fernando Clark (guitarra) e Chico Pessanha (bateria).

Reinaldo vai apresentar e comentar o repertório do show, projetando, ao mesmo tempo, desenhos referentes aos autores das peças. O roteiro inclui composições de Miles Davis, Dizzy Gillespie, Tom Jobim, João Donato, Moacir Santos, Horace Silver, Duke Ellington, John Coltrane e Hermeto Pascoal.

A Arlequim aproveita a ocasião para promover uma tarde de autógrafos do livro “A arte de zoar”, do chargista-baixista Reinaldo.