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Delmark: a marca do jazz made in Chicago

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Por ser o jazz um modo dinâmico de expressão musical no qual a improvisação é um elemento constante - até em peças escritas ou arranjadas quando interpretadas nos estúdios ou nos palcos – o seu registro por excelência é o disco (ou “álbum”). Mesmo nesta era digital em que os antigos LPs e os ainda resistentes CDs podem ser baixados e comprimidos em minúsculos mp3 players, na íntegra ou em partes.

Assim é que, nas discografias especializadas e nas discotecas dos jazzófilos, é muitas vezes difícil dissociar as obras dos grandes músicos das gravadoras (selos famosos ou etiquetas indie) que as perpetuaram. Por exemplo: As “faces” do jovem Louis Armstrong do Hot Five (1925) e do Hot Seven (1927-28) da Okeh Records; as obras-primas de Duke Ellington do período jungle (1927-30) da Okeh/Columbia, e as da segunda grande fase (1940-42) da RCA Victor; as masterworks de Charlie Parker, pai do bebop (1945-47), das etiquetas Savoy e Dial. O mesmo vale para as associações Ornette Coleman-Atlantic, John Coltrane-Impulse, Keith Jarrett-ECM. E para gravadoras detentoras de catálogos variados e antológicos como a Blue Note, que pode exibir, sem maior oposição, o título de “The finest in jazz since 1939”.

Esta introdução é para comemorar o 60º aniversário do selo independente Delmark. E também os 81 anos de seu fundador, Bob Koester, até hoje ativo no comando da pequena empresa, que foi - e ainda é – um repositório fundamental do que de melhor se produziu em Chicago em matéria de autêntico blues urbano e - a partir da década de 60 - do jazz de vanguarda, que começou a fervilhar na Windy City turbinado pela Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM).

No início, a gravadora dedicou-se a preservar a parte mais substanciosa da obra dos legendários blues singers/guitarristas Junior Wells (1934-98), Magic Sam (1937-69) e Sleepy John Estes (1889-1977). Mas, aos poucos, o jazz instrumental foi incorporado ao catálogo da Delmark. O tesouro musical acumulado por Bob Koester é estimado em 250 discos de blues (do autêntico, do “escocês”, como diria Nelson Rodrigues), 55 de jazz tradicional e, até agora, 255 álbuns de jazz contemporâneo, em grande parte comprometidos com o jazz pós-bop e de vanguarda.

Nesta última divisão, devem ser destacados os seguintes álbuns de relevância histórica da Delmark: Sound (1966), o primeiro LP da turma da AACM, um sexteto com realce para o sax alto de Roscoe Mitchell e o trompete de Lester Bowie; Song for (1966), semente do Art Ensemble of Chicago, com Joseph Jarman (sax alto) e Fred Anderson (sax tenor); Three compositions of the New Jazz (1967), com a música cerebral do saxofonista-compositor Anthony Braxton, que gravou também, dois anos depois, For alto – o primeiro disco de improvisação solo de um saxofonista, com duração de 73 minutos (!); Young at heart/Wise in time (1968)do underrated compositor-pianista Muhal Richard Abrams, com a colaboração de outras duas figuras de proa da AACM: Henry Threadgill (sax) e Wadada Leo Simith (trompete, corneta).

Nas últimas décadas, a Delmark de Bob Koester manteve um alto padrão de exigência nos seus lançamentos, com realce para músicos excepcionais e originais como o saxofonista Ernest Dawkins e sua New Horizons Ensemble (The prairie prophet, 2011; Afro straight, 2012); o percussionista Kahil El'Zabar e seu Ritual Trio (com o violinista Billy Bang, Big M, 2004); a notável flautista Nicole Mitchell (Aquarius, com o quarteto Ice Crystal, Jason Adasiewicz no vibrafone).

Além disso, Koester revelou jovens jazzmen do quilate do sax tenor Eric Alexander - que gravou uma série de cinco ótimos discos para o selo na década de 1990 – e, mais recentemente, o cornetista conceitualista Josh Berman, líder de um oiteto que balança entre o in e out no recente CD There now (Comentado aqui neste espaço em 6/10/2012, “Jazz made in Chicago: Vinho velho, garrafa nova”).