Quando, há quase 30 anos, o baixista-compositor Steve Swallow se tornou partner (em todos os sentidos) da brilhante compositora e chefe de orquestra Carla Bley, ele já era apreciado na cena jazzística como um dos mais sofisticados especialistas do contrabaixo acústico (upright bass). Sobretudo como integrante do trio camerístico “free” do clarinetista Jimmy Giuffre (Free fall, Columbia, 1962) e do quarteto do trompetista Art Farmer (Sing me softly of the blues, Atlantic, 1965).
Contudo, na companhia de La Bley – mais na condição de sideman do que de líder – Swallow consolidou o seu prestígio como senhor de um estilo “guitarrístico”, melódico e elegante no baixo elétrico (oubass guitar, de cinco cordas). Não é de hoje que ele aparece, sempre entre os três primeiros, nos referendos anuais das revistas especializadas na categoria baixo elétrico, ao lado de Stanley Clarke, Marcus Miller e Christian McBride (mais recentemente).
Nos últimos anos, Steve Swallow destacou-se, especialmente, em três álbuns assinados por Carla Bley, e lançados no seu selo Watt/ECM: The last chords (2004) e The last chords find Paolo Fresu(2007), tendo como base o quarteto com Andy Shepard (sax) e Billy Drummond (bateria); Appearing nightly (2008), com a big band, eleito “disco do ano” pela Jazz Journalists Association. Em 2011, ele gravou com o pianista Steve Kuhn, seu velho comparsa, o primoroso CD Wisteria (ECM), em trio completado pelo baterista Joey Baron.
Cada vez melhor, aos 72 anos, Swallow reaparece como líder no recém-editado Into the woodwork (Watt/ECM) - um álbum de 12 faixas por ele assinadas, de duração média de cinco minutos, registradas em setembro de 2011 no estúdio La Buissone, perto de Avignon (onde ele e a mulher adoram gravar). No quinteto reunido pelo baixista-compositor, só músicos da “Primeira Liga”: Chris Cheek (sax tenor), Steve Cardenas (guitarra), Jorge Rossy (bateria) e a parceira Carla Bley (órgão, Hammond B-3).
Como compositor de jazz, Swallow explica que não escreve para o sax tenor, para a guitarra ou para o órgão, mas para os intérpretes que tem em mente. No caso, Cheek, Cardenas e Carla Bley. E também Jorge Rossy – cuja estrela começou a brilhar no céu do jazz em meados dos anos 90, como integrante do trio (“The art of the trio”) de Brad Mehldau.
“Este álbum tem muito a ver com o que esse elenco de personalidades provocou em mim como compositor. Eu tinha em mente uma pequena banda com possibilidades de textura interessantes, de diversidade e variedade de som. A primeira reação em face de uma banda com baixo elétrico, guitarra elétrica e órgão é a de que se trata de algo na linha da fusão jazz-rock. Mas eu queria mostrar que se pode ir além desses modelos sônicos, que instrumentos elétricos podem produzir uma palheta textural mais variada”.
E Swallow conseguiu isto, num álbum que harmoniza as diversas (e fortes) personalidades de seus pares numa atmosfera musical semicamerística, no espírito da etiqueta ECM. O crítico Fréderic Goaty, de Jazzmagazine/Jazzman, anotou que “Into the wood é uma pequena joia de invenção refinada, um manifesto discreto pela sobrevida do objeto-disco”.
O próprio músico admite que a sequência das 12 faixas (a mais curta de 2m49, a mais longa de 5m35) é “uma alusão deliberada aos velhos e bons LPs de 33 r.p.m.”.
A música do CD do novo quinteto de Steve Swallow é sedutora em sua aparente simplicidade, e merece seguidas audições, desde a contemplativa Sad old candle (5:15), bem “ECM”, que funciona como uma abertura, até o “ponto final” de Exit stage left (3m45), com o baixo sempre melódico do líder em evidência. Os solos de Chris Cheek são irresistíveis, sobretudo na faixa-título (5m) e em Unnatural causes (2m45) – um tour de force em conjunto com o grande guitarrista Seteve Cardenas. A performance de Carla Bley no órgão é fundamental na harmonização das peças do marido, com realce para abluesy e misteriosa Grisly business (4m40). Jorge Rossy rouba a cena em Back in action (5m).