O NY Quartet de Tomasz Stanko, o poeta do trompete

Tomasz Stanko, 70 anos, ficou conhecido como o “Miles Davis polonês” a partir do álbum Balladyna (Dave Holland, baixo; Edward Vesala, bateria), que Manfred Eicher produziu na Alemanha, para a sua ECM, em 1975. Entre 2001 e 2009, gravou, para a mesma etiqueta, quatro discos que consolidaram sua condição de poeta maior do trompete no jazz contemporâneo – e não apenas o “Miles Davis polonês” - no mesmo nível técnico-criativo do italiano Enrico Rava, do canadense-inglês Kenny Wheeler e do americano Tom Harrell. Estes discos foram: Soul of things (2001), Suspended night (2003) e Lontano (2005), todos com o “quarteto polonês”, ao piano o excelente Marcin Wasilewski; Dark eyes (2009), em quinteto com os escandinavos Jakob Bro (guitarra) e Alexi Tuomarila (piano).

Stanko mantém, há algum tempo, um apartamento em Nova York. E, agora, um New York Quartet, integrado pelo cubano David Virelles, 29 anos, new star do piano, e pelos notáveis Thomas Morgan, 31 anos, e Gerald Cleaver, 49, no baixo e na bateria, respectivamente.

Com este novo grupo, o trompetista gravou, em junho do ano passado, na capital mundial do jazz, o CD duplo Wislawa (ECM) – inspirado, segundo o próprio líder e autor das 12 peças selecionadas, na obra de Wislawa Szymborska (1923-2012), poeta polonesa, Prêmio Nobel de Literatura de 1996.

O nome da escritora não só dá título ao álbum duplo como também aos temas de abertura (10m15) e de conclusão (13m) da lista de 12 faixas. Aliás, os seguintes versos do poemaNuvens, de Wislawa, podem ser usados para descrever as “nuvens” sônicas de Tomasz Stanko: “Não repetem uma única forma, sombra, pose, arranjo (…). Elas flutuam fáceis por sobre os fatos”.

O trompetista não segue os caminhos mais ou menos usuais da variação melódico-harmônica a partir de um tema dado, seja em cima das changes seja em clima modal. Em suas meditações musicais – que não são propriamente solos – prevalece o seu lado crepuscular, mais dramático do que lírico, denso de sentimentos, tenso de pressentimentos. Verdadeiro “escultor” da massa sonora do trompete, Tomasz Stanko é um mestre do claro-escuro e do suspense, no ápice de sua arte, como demonstra mais uma vez– agora com a cumplicidade da refinada e espertíssima “seção” rítmico-harmônica formada por Virelles, Morgan e Cleaver. As duas faixas que têm como título o nome da poeta polonesa e Dernier cri (10m15) são as mais longas do álbum duplo e uma espécie de síntese de sua estética.

Mas o pistonista cidadão do mundo - que se sente em casa tanto em Cracóvia como em Nova York - esquenta o tempo quando lhe convém, em rompantes, espasmos e clarões contrastantes com o caráter habitualmente soturno de suas performances, num ambiente que – à falta de melhor adjetivo – pode ser qualificado de free. É o que ocorre em momentos especialmente eletrizantes, como em Assassins (7m45), Metafizyka (8m20), A shaggy vandal (7m30) e Faces (8m).

As referências reverenciais ao Miles Davis dos tempos do cool jazz – embora sempre em processo de transfiguração – são marcantes em Oni (6m30), peça desenvolvida em tempo médio, com o baterista caprichando nas escovinhas.

A propósito, o New York Quartet de Tomasz Stanko encerra neste sábado (30/3) uma apresentação especial de três noites, para celebrar o lançamento do CD duplo Wislawa, no clube Birdland – um dos melhores de Manhattan, herdeiro do nome do original “Jazz corner of the world”, que ficava na esquina da Broadway com a Rua 52.

Charlie Parker e Cortázar

No próximo sábado, dia 6 de abril, às 15h, na Arlequim – o acolhedor espaço cultural da Praça 15, no centro do Rio – um “tributo” ao legendário saxofonista Charlie Parker (1920-1955) e ao também imortal ficcionista argentino Julio Cortázar (1914-1984), que recomendo a todos os jazzófilos.

Transcrevo parte do “release” divulgado pela Arlequim para o tributo musical e literário concebido pelo baterista argentino Roberto Rutigliano: “A arte destes dois grandes artistas se encontra no fluxo criativo constante de seu texto e de sua música. A prosa contínua de Cortázar, em permanente desafio às imposições da gramática consagrada, parece ser a perfeita representação linguística do fraseado musical em progressiva expansão harmônica com o qual Parker estabeleceu os fundamentos do jazz moderno.

Como máxima expressão do tanto em comum entre dois artistas tão distantes, o escritor argentino dedicou ao músico americano, a quem sobreviveu por quase três décadas, um de seus mais famosos contos, 'O Perseguidor', magnífica metáfora da busca incessante de ambos pela forma plena de expressão”.

O tributo consistirá na leitura de trechos do conto “parkeriano” pelo ator Chico Diaz, e jazz de primeira qualidade com o seguinte time: Tomás Improta (piano), Sergio Barroso (contrabaixo), Idriss Boudrioua e Fernando Trocado(saxofones), Roberto Rutigliano (bateria).

O “couvert” artístico é de R$ 20.