Um quarteto sofisticado com a assinatura de Billy Hart 

Aos 72 anos, Billy Hart seria hoje a maior das lendas vivas da bateria no jazz não estivesse ainda ativo, à frente da sua Fountain of Youth Band, aos 87 anos, o incrível Roy Haynes. Nos últimos 20 anos, a morte levou, pela ordem, mestres Ed Blackwell, Billy Higgins, Max Roach e — recentemente — Paul Motian.

De 1993 a 2002, Hart foi o principal parceiro de Charles Lloyd em três marcantes álbuns que o saxofonista gravou para a etiqueta ECM, ao retornar aos estúdios, depois de mais de 10 anos de sumiço: The call, Canto e Lift every voice. Em 2005, o baterista-compositor registrou para a Highnote um disco do grupo que formara com três excelentes músicos de gerações mais novas: Ethan Iverson (o pianista do audacioso e já famoso trio The Bad Plus), Mark Turner (sax tenor) e Ben Street (baixo).

Este mesmo quarteto — com intuição criativa, técnica e interação bem mais soltas — gravou, em junho do ano passado, o CD All our reasons, que a ECM lançou oficialmente há uma semana, em duas noites (sold out) no Birdland, em Nova York. Mas as nove faixas já estavam disponíveis (baixáveis) desde o mês passado.

O caráter cooperativo do conjunto fica logo patente ao se verificar as “assinaturas” dessas peças: Song for Balkis (12m50), Tolli’s dance (5m25), Duchess (6m30) e Imke’s march (5m45) de Hart; Nigeria (7m50) e Wasteland (7m05) de Turner; Ohnedaruth (6m), Nostalgia for the impossible (5m50) e Old wood (1m40), de Iverson (a última faixa uma breve improvisação do pianista, solo, demonstrando sua satisfação com o som do venerável Steinway do estúdio).

Ohnedaruth e Song for Balkis são especialmente representativas da concepção do quarteto — um jazz camerístico especulativo, em termos de desenvolvimento melódico-harmônico, que flui livre das barras de compasso, iluminado pela gênio percussivo de Billy Hart. É uma música free, mas sem qualquer preocupação de assustar os mais conservadores, de épater les bourgeois.

Os achados e divagações do saxofonista e do pianista — em intervenções ou em solos alongados — são sempre mais meditativos do que enfáticos. Ohnedaruth era o “nome espiritual” de John Coltrane, e a peça de Iverson é alavancada pelo seu piano, solo, em variações cromáticas durante mais de dois minutos, ao fim dos quais surge a referência explícita a Giant steps, e o quarteto desabrocha, com realce para o sax de Turner.

Song for Balkis — a primeira e a mais longa faixa do CD — é introduzida pelo baterista-autor, que logo estabelece o clima impressionista da peça, logo desenvolvida em volutas melódicas pelo sax de Turner até atingir um apogeu coltraneano no registro agudo, mas sem a dramaticidade das “súplicas” de Trane.

Como comentou o reviewer Peter Margasak, o álbum exprime bem o ethos, o caráter “meticuloso e ambiental” da cultuada etiqueta ECM, de Manfred Eicher. “Mas por sob um senso bem dosado de calma e de uma palheta de cores belamente afinadas, a música é sempre reflexiva e soulful ao mesmo tempo”, conclui Margasak.