Contra os tanques soviéticos os tchecos usavam o humor

Apesar dos tanques soviéticos que invadiram seu país em plena noite de 21 de agosto de 1968 para acabar com uma tentativa de "socialismo com rosto humano", os tchecos e eslovacos conservaram seu mordaz senso de humor.

Diante da impossibilidade de se defender de outra forma e após o golpe instaurado, as ruas se transformaram espontaneamente em uma espécie de revista de humor, com inscrições com giz e cal e cartazes feitos à mão.

"Aprofundamos tanto nossa amizade que, no final, nos fundimos", segundo um autor anônimo, constatando o fato de que a agressão foi realizada pela URSS e outros quatro "países irmãos" do Pacto de Varsóvia, do qual a Thecoslováquia tambem fazia parte.

"Lenin, desperta, Brézhnev ficou louco!", clamava outra frase, onipresente, refletindo talvez a ingênua crença de que o fundador do regime soviético não teria gostado da atuação de um de seus sucessores.

Na mesma linha, outro slogan dizia: "Lenin teria vergonha de ver vocês aqui". Como rimava muito bem em tcheco ("Lenin by se stydel, kdyby vas tu videl"), os tchecos e eslovacos gritavam essa frase na frente dos canhões.

- Ivan,volta para casa -

"Ivan, volta para casa, queremos ir para a escola", dizia outro lema, lembrando da volta às aulas e usando o nome "Iván" para se referir ironicamente a "o russo", um verdadeiro hábito.

"Ivan, volta para casa, sua Natasha sai com Kolia!", dizia outro, que mais tarde se transformaria em uma canção, que dizia: "Volta para tua casa, Ivan, Natasha te espera. Volta para tua casa, Iván, aqui as meninas não te querem. Volta para tua casa, Ivan, e não volta nunca mais por aqui!".

Esse tipo de ironia incomodava os simples soldados soviéticos, que não entendiam porque foram enviados para a Tchecoslováquia e que lidavam várias vezes ao dia com a dúvida sobre o que faziam ali, porque foram para lá.

Não foram poucas as frases irônicas que surgiram em reação à propaganda oficial de Moscou, que afirmava que a população havia recebido com alegria a chegada do exército soviético que "acabou com a contrarrevolução desenfreada".

"A agência TASS anuncia que o exército soviético foi acolhidao com flores. Acrescentamos: é verdade, mas estavam em vasos!", diziam um das inscrições, enquanto outra citava um correspondene fictício da agência oficial soviética que avisava ao Kremlin que "Doze novos contrarrevolucionários estão hoje na unidade de maternidade de Praga! Enviem mais tanques!".

- Dez mandamentos -

O humor típico do país do "valente soldado Chveik", herói de uma famosa novela que sai sem um arranhão de todas as situações graças a uma mistura de ingenuidade e estranheza escondidas, também apareceu em vários apelos à não colaboração com os ocupantes e seus assistentes locais.

O jornal Vecerni Praha publicou os "Dez mandamentos": 1. Não sei, 2. Não conheço isso, 3. Não direi, 4. Não tenho, 5. Não sei fazer, 6. Não darei, 7. Não posso, 8. Não irei, 9. Não vou mostrar e 10. Não farei.

Para tentar bloquear a ação do exército e dos serviços secretos soviéticos, os tchecos e eslovacos esbranquiçaram com cal os sinais e placas de rua de todo o país, para rebatizá-las "Rua Dubcek", em homenagem a Alexander Dubcek, o líder reformista.

Um dos jogos de palavras nasceu do sobrenome do presidente tcheco, Svoboda, que significa "liberdade" em tcheco e russo. Em um primeiro momento, Ludvik Svoboda apoiou timidamente as reformas de Dubcek, mas acabou por aceitar a "normalização".

"Bem-vindo, Svoboda. Trouxe alguma liberdade?", escreveram jovens de Praga em uma parede, antes do retorno de Moscou dos dirigentes tchecos.

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