Acusado policial que matou com um disparo jovem na França

O policial francês que matou um jovem em Nantes, provocando uma onda de distúrbios, foi acusado nesta sexta-feira (6) por morte involuntária, após mudar a sua versão dos fatos.

A morte na terça-feira à noite de Aboubakar F., de 22 anos, que ocorreu durante um blitz policial, provocou uma onda de distúrbios em Nantes, oeste da França, e em Garges-lès-Gonesse, uma localidade nos arredores de Paris, de onde era originário.

Os manifestantes, que denunciavam um "abuso policial", queimaram dezenas de veículos e degradaram vários imóveis e estabelecimentos comerciais durante três noites consecutivas de atos de violência.

O policial, que foi colocado em prisão preventiva na quinta-feira para ser interrogado, "admitiu que deu uma declaração que não corresponde com a verdade", disse à AFP seu advogado, Laurent-Franck Lienard.

Depois de ter afirmado que agiu em legítima defesa, nesta sexta "assinalou que se tratou de um disparo acidental", acrescentou Lienard.

Após a sua declaração, o juiz "o acusou por golpes e feridas voluntárias que provocaram a morte de forma involuntária", explicou o letrado à AFP.

Segundo uma fonte próxima à investigação, o agente havia afirmado em um primeiro momento que abriu fogo quando o jovem tentou dar marcha ré "em grande velocidade", colocando em risco a vida de um agente que estava atrás do veículo.

De acordo com outra fonte, seus colegas tinham confirmado essa versão, e acrescentaram que havia crianças brincando na calçada, logo atrás do carro.

Mas essa versão, que não foi confirmada pelo promotor de Nantes, Pierre Sennès, não correspondia com os depoimentos de vários habitantes interrogados por jornalistas da AFP. Segundo uma mulher que filmou a cena e falou sob anonimato, "não haviam nenhum agente atrás do carro".

- Autoridades prometem 'transparência' -

Aboubakar F. tinha pendente uma ordem de prisão por roubo. Sua morte provocou três noites consecutivas de distúrbios em três bairros sensíveis em Nantes. Quatro pessoas foram detidas na noite de quinta-feira, incluindo um menor de 14 anos que barril de gasolina e pavios, segundo fontes policiais.

Cinquenta e dois veículos foram queimados na noite de quinta-feira em Nantes, entre eles o da prefeita da localidade, e oito imóveis sofreram degradações.

Os distúrbios trouxeram novamente à tona as tensões nas zonas urbanas desfavorecidas da França.

Os jovens que vivem nessas regiões muitas vezes denunciam a linha dura e a brutalidade policial, enquanto as forças de segurança são frequentemente alvos de atos violentos.

Em uma tentativa de acalmar as tensões, o primeiro-ministro Edouard Philippe visitou Nantes na quinta-feira e prometeu "transparência" na investigação da morte do jovem.

Na quinta-feira à noite, 1.000 pessoas marcharam em Nantes para pedir "justiça para Abou" e exigir que esclareçam as circunstâncias de sua morte.

As autoridades querem evitar a todo custo que os distúrbios se espalhem, como aconteceu em 2005 após a morte de adolescentes negros eletrocutados quando fugiam da polícia.

No ano passado, o suposto estupro de um jovem negro com um cassetete em um subúrbio de Paris também gerou confrontos com a polícia.