Ventos da mudança: Apesar da censura, oposição turca se une e desafia Erdogan

A Turquia enfrenta hoje a primeira eleição geral desde o fracassado golpe militar de 2016 e o referendo que ampliou os poderes do dirigente turco, Recep Tayyip Erdogan, acusado de governar como um ditador. O pleito, que estava previsto para 3 de novembro de 2019, foi antecipado em 16 meses pelo atual presidente, no poder há 15 anos e disposto a governar o país transcontinental por mais cinco. A oposição ao governo se reuniu em uma inédita coalizão que pode ser capaz de forçar um segundo turno. A desaceleração da economia e a crescente insatisfação com o elevado número de imigrantes sírios no país dominaram a agenda eleitoral. 

Para a maior parte dos analistas, esses fatores, que impactam diretamente a população, levaram Erdogan a adiantar as eleições com o intuito de evitar um desgaste ainda maior no fim do ano que vem. Ainda assim, a alta nos preços e o desemprego, agravado pela presença dos sírios, que aceitam trabalhar com salários menores, serviram como moeda de campanha para seus principais opositores. Um deles, o social-democrata Muharrem Ince, do Partido Republicano Popular (CHP), tem chances reais de desafiá-lo nas ruas e em um possível segundo turno.

As projeções otimistas não significam, no entanto, que os opositores tiveram facilidade em participar do processo eleitoral. O candidato Selahattin Demirtas, que é conhecido como o “Obama curdo”, ficou em terceiro lugar na eleição presidencial de 2014 e participou da campanha este ano dentro da prisão. Detido em 2016 acusado de terrorismo junto de dez outros parlamentares de sua legenda de centro-esquerda, o Partido Democrático Popular, Demirtas defendeu ontem em um artigo publicado no jornal inglês “The Guardian” que sua detenção é política. 

A máquina estatal também é um grande  empecilho para a oposição. Erdogan domina boa parte da mídia tradicional, defensora do governo, e censura sites, páginas e pessoas que o critiquem na internet. A brasileira Angélica Brandão, que está em Instambul, relata que a campanha de Erdogan e sua legenda, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP), é absoluta em comparação com os oponentes. “As ruas e a televisão estão tomadas por anúncios de Erdogan e do seu partido”, diz Brandão.

Além de usar todos os esforços ao seu alcance para garantir a reeleição, o presidente turco também tem o desafio de garantir maioria no parlamento. O AKP formou a coalizão “Aliança do Povo” com o Partido da Ação Nacionalista, e precisa conquistar 300 cadeiras para governar. Erdogan, no entanto, já admite a possibilidade de negociar coalizões com outras legendas para conseguir governar. Nas eleições parlamentares de 2015, seu partido perdeu a maioria parlamentar e ele convocou um novo pleito, demonstrando, à época, estar pouco interessado em negociar coalizões de governo.

Não é possível, no entanto, descartar a possibilidade do dirigente turco conquistar uma vitória absoluta, garantindo sua reeleição e a maioria do AKP já no primeiro turno. No entanto, se não reunir a maioria dos votos, deve se reencontrar com Muharrem Ince nas urnas em 8 de julho. Nesse cenário, poderá garantir a reeleição sem a maioria parlamentar, o que derrubaria sua veste de invencível e traria instabilidade ao país. As chances de Ince vencer as eleições, com ou sem controle do parlamento, são muito incertas. Além de Erdogan, Ince e Demirtas, são candidatos a nacionalista conservadora Meral Aksener, o conservador muçulmano Temel Karamollaoglu e o advogado de esquerda Dogu Perinçek. 

Erdogan, de 64 anos, chegou ao poder em 2003 como primeiro-ministro, cargo que ocupou até 2014. Na ocasião, foi eleito presidente do país, um cargo mais simbólico no sistema parlamentarista. Depois do desastroso golpe de 2014, o dirigente turco prendeu 140 mil pessoas acusadas de conspirarem contra o governo e impulsionou uma reforma que lhe deu amplos poderes presidenciais, aprovada em um referendo apertado. 

* Com supervisão de Denis Kuck