Começa guerra comercial entre UE e Estados Unidos

A União Europeia (UE) aumentou nesta quinta-feira (21) suas tarifas sobre produtos americanos, como o uísque bourbon, os jeans e o tabaco, em resposta à disputa comercial aberta pelo presidente americano, Donald Trump, que ameaçou respondeu com tarifas sobre veículos do bloco.

Se "tarifas e barreiras comerciais impostas há muito tempo aos Estados Unidos, suas grandes empresas e trabalhadores na União Europeia (...) não forem retiradas rapidamente, vamos impor uma tarifa de 20% sobre todos os carros que chegarem aos Estados Unidos que foram construídos lá", tuitou o presidente.

Horas antes, às 22h GMT (19h em Brasília), as novas tarifas europeias sobre produtos americanos haviam entrado em vigor, a única "opção" para responder, de acordo com Bruxelas, à decisão "injustificada" de Washington de impor tarifas siderúrgicas para seus parceiros comerciais.

Donald Trump decidiu não prolongar a isenção temporária outorgada em março a UE, México e Canadá, e impôs a esses países, no dia 1º de junho, tarifas de 25% às exportações de aço a seu país, e de 10%, às de alumínio, como já havia feito anteriormente com a China por motivos de "segurança nacional".

A imposição de tarifas de 25% em média a uma lista de produtos americanos, publicada na véspera pelo Diário Oficial da UE, segue os passos do México, que adotou medidas de represália no começo de junho, e se antecipa ao Canadá, que planeja fazer o mesmo em julho.

Nesse contexto, crescem os temores do alcance de uma guerra comercial mundial, em plena tensão entre Estados Unidos e China.

"Trump abriu duas frentes, e os dois poderiam conhecer uma escalada que acabe fora de controle", disse à AFP John Ferguson, especialista do Economist Intelligence Unit.

Para o economista do banco sueco SEB, Robert Bergqvist, a guerra comercial "se intensifica". Em declarações à AFP, ele ainda alertou para o eventual impacto nos mercados de ações e na economia mundial.

Com sua ameaça aos veículos, o mandatário americano mira diretamente na maior economia da zona do euro, Alemanha, no alvo de Washington por seu excedente comercial e por seu gasto militar na Otan, considerado escasso por Trump.

- Harley, manteiga de amendoim, uísque bourbon -

As medidas "de reequilíbrio" da UE, comunicadas em meados de março à Organização Mundial de Comércio (OMC), entram finalmente em vigor e miram em alguns casos para estados americanos, essencialmente agrícolas, que votaram em Donald Trump em 2016.

Além de alguns produtos de siderurgia, como determinados tipos de aço laminado, a UE aumenta suas tarifas alfandegárias sobre produtos agrícolas, como milho e arroz; roupas e calçados; veículos automotivos; e até mesmo maquiagens, charutos, cigarros e bebidas alcoólicas.

"Se escolhemos produtos como Harley-Davidson, manteiga de amendoim, (uísque) bourbon, é porque existem alternativas no mercado [europeu]", explicou nesta quinta-feira o vice-presidente da Comissão, Jyrki Katainen, para quem esses produtos têm "um forte alcance simbólico".

Os europeus acompanham os mexicanos, que impuseram, em 5 de junho, tarifas por um valor de quase 3 bilhões de dólares sobre produtos de aço e alumínio americanos, e sobre carne de porco, maçãs, queijos, cranberries, uvas e uísque.

A UE, que estima que as tarifas de Trump sobre o aço e o alumínio europeus podem lhe trazer perdas de 6,4 bilhões de euros, também levou o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC) e avalia impor medidas "de salvaguarda" para proteger seu mercado frente às exportações siderúrgicas de terceiros países.

O conflito comercial representa um novo revés para as tradicionais relações transatlânticas, já deterioradas pela decisão do presidente dos Estados Unidos de sair do Acordo de Paris sobre o clima e do acordo nuclear com o Irã, assim como por suas críticas no passado à Otan e seus aliados.

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