Os quatro desafios da nova direita do presidente eleito da Colômbia

Com sua sólida vitória no domingo (17), o presidente eleito Iván Duque poderá governar tranquilamente uma Colômbia ameaçada pelo narcotráfico, em tensão com a Venezuela e dividida pelo histórico acordo de paz com as Farc.

Mais de dez milhões de eleitores apoiaram a volta da direita conservadora ao poder na figura desse advogado, que, com apenas quatro anos de atuação no Congresso, chegou ao posto máximo do país pelas mãos do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-10).

A partir de 7 de agosto, quando assumir o cargo, Duque e sua bancada majoritária enfrentarão vários desafios depois de oito anos de férrea oposição ao impopular Prêmio Nobel da Paz Juan Manuel Santos.

1) Revisão da paz

Depois de vencer no segundo turno o ex-guerrilheiro Gustavo Petro com 53,98% dos votos, Duque mencionou a intenção de fazer uma revisão do acordo que acabou com meio século de conflito com a já dissolvida guerrilha das Farc.

Assinado em 2016, este pacto permitiu o desarmamento de 7.000 combatentes e evitou 3.000 mortes por ano, em troca que os rebeldes poderem se transferir para a política.

O acordo foi rejeitado, porém, por metade dos colombianos em um plebiscito que terminou sendo a semente da ampla vitória da direita.

Assim que eleito, Duque prometeu que fará correções ao acordo sem dar mais detalhes, apesar de, em campanha, assegurar que buscará que os chefes rebeldes acusados de crimes hediondos paguem um mínimo de prisão e percam a elegibilidade.

O novo partido Farc, que descartou uma volta às armas, pediu a sensatez de não se mexer no acordo de paz.

"Uma coisa é o discurso em campanha, e a outra é quando se está em exercício. Acho que seria muito oneroso voltar atrás em algo que os ex-guerrilheiros já conquistaram", afirmou Fabián Acuña, analista da Universidade Javeriana.

Duque, que além de propor endurecer as condições para o diálogo em curso com os rebeldes do Exército de Libertação Nacional (ELN), disse que respeitará o acertado para que os ex-combatentes se reincorporem socialmente.

"Com seu discurso de união, Duque propõe uma posição mais flexível que a de Uribe, mas essa posição, de qualquer maneira, inclui uma mensagem de revisão", segundo o especialista Andrés Macías, da Universidade Externado.

2) À sombra de Uribe

Perguntas são recorrentes. Duque será um fantoche de Uribe, como acusa a oposição? Será independente, mas fiel aos postulados de seu mentor, ou, como Santos, vai traí-lo?

"Duque ganhou obedecendo a tudo que Uribe dizia, então, o fantasma de Uribe é real", afirma Acuña.

Os colombianos renovaram sua fé no ex-presidente, apesar das investigações sobre supostos vínculos com paramilitares e sobre interceptações ilegais.

Desde que assumiu o poder em 2002, Uribe se tornou uma espécie de "grande eleitor", depois de ter dizimado militarmente os grupos armados.

"É a personalidade política mais importante do século XXI na Colômbia", explica o pesquisador Nicolás Liendo.

Em 2010, quando deixou o poder, conseguiu a vitória do pouco carismático Santos. Quatro anos mais tarde, ajudou o desconhecido Óscar Iván Zuluaga frente ao atual presidente. E, em 2016, liderou a campanha pelo "Não" que obrigou Santos a renegociar o acordo com as Farc.

Agora seu herdeiro político governará a quarta economia latino-americana com as bandeiras do mentor: mão de ferro contra a violência, investimento privado e defesa dos valores tradicionais.

E, além disso, Uribe vai liderar no Senado a bancada de seu partido, o Centro Democrático, após obter a maior votação em março.

3) Pressão contra Maduro

Opositor do governo de Nicolás Maduro na Venezuela, Duque pretende liderar a pressão internacional contra o que considera "uma ditadura presidida por um genocida".

"A partir do discurso de campanha, se espera que a relação com a Venezuela se torne terrível", prevê Acuña.

O presidente eleito ameaça denunciar Maduro no Tribunal Penal Internacional (TPI) junto com outros governos e devolver a democracia ao país petroleiro com ajuda da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Com uma fronteira comum de 2.200 km, a Colômbia enfrenta um fluxo migratório inédito de venezuelanos que fogem da miséria em seu país.

Nos últimos 16 meses, mais de um milhão de pessoas provenientes da Venezuela chegaram ao país.

"Até que acabe essa ditadura, o fluxo migratório não vai parar. Mesmo fechando a fronteira, ela é porosa, e a migração continuará", afirmou.

As autoridades na Venezuela, um dos países avalistas do acordo com as Farc, são acusadas por Duque de serem cúmplices do tráfico de drogas.

4) Drogas e EUA

O maior produtor mundial de cocaína enfrenta uma disparada dos narcocultivos que lhe valeu uma severa chamada de atenção dos Estados Unidos, seu tradicional aliado e principal mercado da droga colombiana.

Duque, que quer uma boa relação com o imprevisível Donald Trump, propôs reativar as fumigações antidrogas com um pesticida diferente do glifosato - proibido por lei -, o que certamente abrirá para ele uma frente de tensão com os camponeses cocaleiros.

O presidente eleito, que promete penalizar de novo a dose mínima, admitiu no domingo que o crescimento dos cultivos de coca ameaçam a segurança nacional.

E, sem antecipar uma estratégia concreta, esboçou uma política de segurança para campos e cidades que envolve a luta frontal contra o narcotráfico, em um momento em que as máfias mexicanas estão financiando os dissidentes das Farc que ocupam o espaço deixado pela ex-guerrilha nas fronteiras com Equador e Venezuela.

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