Metade dos migrantes do 'Aquarius' quer refúgio na França

Quase metade dos 630 migrantes do navio humanitário "Aquarius", desembarcados na Espanha no domingo pretendem pedir refúgio na França, anunciou nesta segunda-feira (18) o governo espanhol.

"Quase metade dos migrantes manifestou o desejo de pedir refúgio na França, que se ofereceu para receber parte das pessoas que viajava na embarcação", declarou em um comunicado o governo de Pedro Sánchez um dia depois de receber os migrantes em Valência.

Procedentes principalmente de países africanos, eles receberam uma permissão de 45 dias para permanecer na Espanha enquanto sua situação é analisada.

O desembarque marcou o fim de uma jornada de 1.500 km pelo Mediterrâneo depois que a Itália fechou suas portas ao "Aquarius" - fretado por duas ONGs para resgatar migrantes no mar -, em um caso que agitou a diplomacia na União Europeia.

A Espanha espera que neste período de 45 dias os migrantes resgatados em frente à costa da Líbia pelo "Aquarius" - 541 homens, 88 mulheres e um recém-nascido - tenham definido "seu status jurídico", indicou a vice-presidente do governo, Carmen Calvo, à emissora de rádio Cadena SER.

Pedro Sánchez agradeceu no sábado ao presidente francês, Emmanuel Macron, a oferta de receber parte dos migrantes.

Paris examinará "caso a caso", segundo afirmou no domingo o porta-voz do governo francês, Benjamin Griveaux. Uma equipe do escritório francês para a proteção de refugiados (Ofpra) chegará a Valência nos próximos dias, anunciou seu diretor, Pascal Brice.

Na França, a falta de iniciativa do governo para acolher o "Aquarius", que passou perto da ilha francesa da Córsega, foi criticada por parte da população, membros da esquerda e até pelo próprio partido de Macron.

Mas segundo uma pesquisa OpinionWay divulgada nesta segunda-feira, 56% dos franceses estimaram que o governo fez o certo, enquanto 42% acreditam no contrário.

- Tolerância na Espanha -

Na Espanha, a Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado (CEAR) agradeceu nesta segunda-feira que todos os migrantes do Aquarius tenham sido autorizados a desembarcar no país.

Enquanto em muitos países europeus os cidadãos e os governos estão se inclinando a posições mais duras contra o afluxo maciço de migrantes, Pedro Sánchez exibiu uma postura mais aberta, ao contrário de seu antecessor, o conservador Mariano Rajoy.

Em outubro de 2017, de acordo com o termômetro europeu da Comissão Europeia, a Espanha era um dos países mais tolerantes em termos de imigração. Cerca de 26% dos seus cidadãos consideravam a imigração de fora da Europa "um problema", abaixo da média de 38% na UE.

Em 2015, no auge da crise migratória, prefeitos de várias cidades, como Barcelona e Madri, defenderam a acolhida de refugiados e criticaram a passividade de Rajoy.

O gesto de Sánchez de receber os migrantes do "Aquarius" é "uma oportunidade fantástica para a Espanha de liderar uma nova política na Europa", apontou Estrella Gallant, secretária-geral da CEAR.

A Guarda Costeira da Espanha, terceira via marítima de entrada de migrantes em situação ilegal na UE, atrás da Itália e da Grécia, resgatou, desde sexta-feira, mais de 1.400 que tentavam chegar às suas costas.