Campo de Yarmuk em Damasco, um dos símbolos do calvário sírio

Depois do cerco, da fome e da dominação extremista, vieram a chuva de bombas e sua reconquista por parte do governo: o campo de Yarmuk, no sul de Damasco, viveu um calvário desde o início do conflito sírio há sete anos.

Esse campo de refugiados palestinos, transformado em um bairro residencial com o passar do tempo, assim como os distritos vizinhos de Hajar al-Aswad, Qadam e Tadamun, formavam até domingo o último bastião do grupo Estado Islâmico (EI) na capital, antes de sua reconquista nesta segunda-feira pelas forças de Bashar al-Assad.

Asfixiada desde meados de 2013 por um implacável cerco, o mesmo vivido por Ghuta Oriental antes de sua recente e sangrenta reconquista pelo governo sírio, Yarmuk foi bombardeada noite e dia desde 19 de abril pela Força Aérea e pela artilharia do regime até que um cessar-fogo entrasse em vigor em 19 de maio.

A ofensiva foi realizada pelo governo, apoiado por facções palestinas locais. Moscou se envolveu militarmente ao lado do regime, com agentes russos supervisionando a operação, segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

Os combatentes do EI que controlavam, até o fim das hostilidades, metade desse campo e 15% do bairro vizinho de Tadamun, conforme o OSDH, terminaram por se render e aceitar um acordo de evacuação negociado pelos russos e pelas facções palestinas.

Cerca de 1.600 combatentes e civis foram retirados, entre domingo e segunda, a bordo de 32 ônibus, relatou o OSDH.

Situado a sete quilômetros do centro de Damasco, Yarmuk era, inicialmente, um acampamento de refugiados criado pela ONU nos anos 1950 para acolher os palestinos expulsos de suas terras, ou que fugiam da guerra árabe-israelense após a criação do Estado hebreu em 1948.

Ao longo das décadas, transformou-se em um bairro residencial e comercial de dois quilômetros quadrados.

Antes do início do conflito sírio em 2011, abrigava cerca de 160.000 refugiados palestinos, assim como sírios. Agora, apenas algumas centenas de pessoas vivem ali.

No final de 2012, pelo menos 140.000 refugiados fugiram de Yarmuk em uma semana, enquanto o regime realizava uma campanha de bombardeios para tentar conter o avanço dos extremistas.

Com a ajuda de combatentes da Frente Al-Nusra, o ex-braço da Al-Qaeda que domina hoje a coalizão jihadista Hayat Tahrir al-Cham, o EI tomou a área em abril antes de expulsar, um ano mais tarde, seu rival extremista.

- Desolação -

Yarmuk estava sitiada desde junho de 2013. Seus moradores viviam em um cenário de desolação e de pobreza extrema.

Antes da última ofensiva do regime, cerca de 6.000 refugiados palestinos ainda viviam em Yarmuk, e 6.000, nos arredores, segundo a Agência da ONU para Refugiados Palestinos (UNRWA).

Muito dura há vários anos, a situação humanitária se degradou significativamente.

O último hospital no campo, o hospital Palestina, não está funcionando, relata a agência da ONU.

Já em 2014 a UNRWA se alarmava.

"No léxico de desumanidade do homem em relação a seu irmão, acrescenta-se um novo termo: Yarmuk", disse na época seu porta-voz, Chris Gunness.

"As pessoas estão sendo obrigadas a comer comida para os animais, e as mulheres morrem no parto, por falta de cuidados", completou Gunness.

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