Deserto do Atacama, no Chile, abriga o berço das múmias mais antigas do mundo

Como correspondente internacional, no Chile, e com o apoio da Fundación Imagen de Chile e da Universidade de Tarapacá, no final de 2017 integrei um grupo de jornalistas em visita aos sítios arqueológicos, centros de pesquisa e museus de preservação da milenar cultura Chinchorro no litoral do deserto de Atacama. 

Em um perímetro de 150 quilômetros em torno de Arica, distante dois mil quilômetros de Santiago, durante três dias empreendemos uma viagem no túnel do tempo, que nos desembarcou no território da aurora humana em terras sul-americanas, com seu mais antigo ritual de mumificação da história. 

Como primeira escala, receberam-nos com um coquetel ao ar livre, diante das Cavernas de Azota, ao sul de Arica, uma paisagem costeira que - com a devida ressalva à linguagem banalizada - transpira esplendor paradisíaco, e entre 9.000 e 2.000 a.C. foi o berço da cultura Chinchorro pré-colombiana. 

Em sentido oposto, a meia hora de carro de Arica, a aldeia desértica de San Miguel de Azapa, cujas palmeiras podem confundi-la com um cenário do Saara, abriga o Museu Arqueológico Chinchorro, com um cinematográfico dormitório de múmias refrigerado, no qual dezenas de corpos preparados com argila e máscaras pintadas há milênios mantêm bocas e olhos abertos, mirando a eternidade. 

Entremeando essas excursões, no Laboratório de Bioarqueologia da Universidade de Tarapacá, os arqueólogos Bernardo Arriaza e Carlogero Santoro e o antropólogo Sergio Medina expuseram seu notável esforço pela preservação das múmias frágeis e graciosas, subitamente atacadas por bactérias originadas por efeito de mudança climática, que exigiu pedido de socorro a uma equipe da Universidade de Harvard. 

E então o insólito! 

Caminhando em paralelo às dunas que se derramam no Pacífico, na vila de pescadores de Camarones, o viajante desavisado é surpreendido por um fenômeno bizarro: pés, braços ou torsos de múmias aflorando da areia soprada pelos ventos do Atacama. 

Dois mil, cinco mil, nove mil anos de idade? Múmias por todos os lados! Um pescador me conta que certo dia encontrou uma vala comum de múmias debaixo do chão batido de sua cabana. 

O encontro é desconcertante e a paisagem pitoresca potencia a vertigem.

O Renascimento Chinchorro 

Por acasos como esses é que, no início do século 20, o arqueólogo alemão Max Uhle topou com as primeiras múmias Chinchorro, que eram desenterradas e comercializadas em Arica por ladrões de insuspeitados sítios arqueológicos. 

Cofundador do Museu de Antropologia em Santiago, Uhle montou o primeiro acervo de múmias Chinchorro que, com apoio do Instituto Max Planck, da Alemanha, resolveu ir fundo na pesquisa da paleocultura, submetendo as múmias a minuciosos exames de DNA, com auxílio de detectores laser. 

Além de tentar responder quesitos científicos e históricos em aberto, o objetivo da análise visa à reconstrução parcial do genoma Chinchorro e a determinação das propriedades físico-fenotípicas, bem como as predisposições genéticas para doenças e adaptação natural dos povos primitivos do deserto do Atacama. 

Por isso e juntos, o museu e a Universidade Tarapacá desencadearam em 2017 ampla campanha internacional visando incorporar o Complexo Chinchorro ao Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade sob a chancela da Unesco.

Arsênio letal provocou mumificação 

Os índios Chinchorro organizavam-se em comunidades primitivas de pescadores, que desde 9.000 a. C. colonizaram uma faixa litorânea do Atacama que, a rigor, até a Guerra do Salitre (1879-1883), era território peruano. Ao contrário da civilização egípcia, muito posterior, a mumificação entre os Chinchorro não era privilégio da nobreza e não se limitava aos adultos, mas incluía crianças e até fetos abortados. 

Segundo o antropólogo Bernardo Arriaza, as altas taxas de mortalidade infantil que afetaram os Chinchorro deviam-se, provavelmente, às concentrações de arsênio tóxico acima da média no solo arenoso e pedregoso do Atacama. O pesquisador analisou sedimentos e plantas, comparando-as com provas de cabelo das múmias, convencendo-se de que o alto teor de arsênio nas águas de um córrego em Camarones estaria diretamente associado à mortalidade entre seus antigos povoadores e aos primórdios da mumificação. 

Os Chinchorro não conseguiam entender o que estava acontecendo, adverte Arriaza, porque o arsênio dissolvido na água não é detectável a olho nu. Como resposta emocional à perda, começaram a desenvolver primeiramente a mumificação de fetos e crianças. 

Mumificação: ritual de eternização 

A lógica que norteava a mumificação era de que a adoração dos mortos só seria possível com corpos embelezados e não em decomposição e malcheirosos. A técnica usada era elementar. Evisceravam os corpos, extraindo-lhes todos os órgãos, mantendo inteira a pele. 

O esqueleto recebia apoio de galhos e fibras naturais, sendo então preenchido com uma primeira camada de areia, para devolver ao corpo sua forma original. Assim reconstituídos, os corpos eram submetidos à fase final, a do acabamento artístico, mediante pintura com corantes vegetais ou de argila, havendo múmias pretas e vermelhas, como ainda múmias com ou sem máscaras mortuárias. Com a técnica das máscaras o crânio era adornado com perucas de cabelo natural, cortado, mas com boca e olhos de tal modo enfatizados pela pintura, como se estivessem abertos e vivos. Observação que inspirou o arqueólogo Arriaza para uma tese que faz todo o sentido: boca e olhos abertos podem ser interpretados como afirmação, até mesmo como homenagem à vida sob novas circunstâncias. 

Únicas no mundo, segundo Arriaza, as múmias  Chinchorro são uma representação primitiva da vida e da morte como obra de arte. Não apenas sua técnica de preservação ao longo de vários milênios, mas como ritual da perpetuação do indivíduo em harmonia com a natureza. Uma coisa é certa: com ou sem sua incorporação ao Patrimônio da Humanidade, a “Rota Chinchorro”, como novo produto turístico internacional apoiado pela Secretaria Nacional de Turismo e a Corporação de Fomento da Produção (Corfo), do governo chileno, já está atraindo milhares de turistas internacionais à costa do Atacama.