Tensão persiste na Nicarágua mesmo após revogação de reforma polêmica

A Nicarágua prosseguia nesta segunda-feira (23) em um clima de tensão e caos, apesar de o presidente Daniel Ortega ter revogado a polêmica reforma ao sistema de pensões que mergulhou o país no caos com protestos violentos, saques e confrontos com a Polícia, que deixaram 27 mortos.

A vice-presidente e primeira-dama Rosario Murillo tentou aliviar a tensão, ao anunciar, em coletiva de imprensa, a decisão de soltar os detidos nos protestos, a pedido do arcebispo de Manágua Leopoldo Brenes, "estabelecendo as bases do diálogo".

Também revelou que uma policial morreu no domingo durante os protestos. O Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh) disse ter atualizado a contagem de mortos para 26, sem incluir a policial, elevando o total de vítimas fatais a 27.

Dezenas de milhares de pessoas participaram de uma passeata esta noite na capital da Nicarágua, um protesto convocado por empresários para exigir o fim da repressão contra os manifestantes que sacodem governo de Daniel Ortega.

A chamada "Marcha pela paz e o diálogo" concentrou em Manágua trabalhadores, estudantes, moradores e empresários com bandeiras da Nicarágua e vestindo camisas brancas e pretas, que marcharam pacificamente entoando o hino nacional e gritando palavras de ordem contra o governo e a favor dos estudantes detidos.

"Nicarágua, te amo", diziam alguns cartazes dos manifestantes, enquanto outros mostravam os nomes dos estudantes mortos nos protestos iniciados na quarta-feira passada.

Originalmente convocada pelo Conselho Superior da Empresa Privada (COSEP), aliado de Ortega em seus 11 anos no poder, a marcha atraiu setores inconformados com o governo para apoiar os protestos desatados por uma reforma ao sistema de pensões que aumentaria as contribuições de trabalhadores e patrões.

Igualmente, o clima de distensão que Ortega tentou criar com a revogação da reforma de pensões se dissipou com uma violenta investiga policial na noite de domingo na sede da Universidade Politécnica, onde estavam entrincheirados os manifestantes contrários ao governo.

Ortega tentou no domingo aplacar a fúria das ruas, revogando o aumento nas contribuições de patrões e trabalhadores ao fundo de pensões administrado pelo Instituto Nicaraguense de Seguro Social (INSS).

Estes aumentos foram o estopim dos protestos iniciados na quarta-feira por um grupo de estudantes, que rapidamente se estendeu a outros setores da sociedade.

"Os protestos não são mais pelo INSS, mas contra um governo que nos nega liberdade de expressão, liberdade de imprensa e de nos manifestarmos pacificamente", declarou à AFP Clifford Ramírez, estudante de Ciências Políticas de 26 anos, que participou do início das passeatas.

"Acreditamos que não há mais espaço para o diálogo", acrescentou Ramírez em conversa por telefone.

- Caos e saques -

As manifestações iniciadas pelos estudantes receberam o apoio dos moradores dos bairros, que saíram às ruas fazer panelaços, e de trabalhadores e operários inconformados com a corrupção no governo e a deterioração de suas condições de vida.

Os protestos se intensificaram no fim de semana, com barricadas de pedras e pneus incendiados nas ruas, enquanto prosseguiam os saques em lojas de vários pontos da capital.

O governo recorreu à tropa de choque para conter os protestos e, segundo os manifestantes, os policiais usaram armas de fogo.

Ortega comparou os manifestantes a membros de gangues que semeiam o terror no norte da América Central e antecipou que "isto que está acontecendo também obriga os nicaraguenses a colocar em nossa agenda o combate às gangues".

A violência gerou reações de consternação da comunidade internacional, com apelos à calma e ao respeito do direito à manifestação por parte do papa Francisco, da União Europeia, Estados Unidos e México.

Washington ordenou na segunda-feira a retirada de familiares do pessoal da embaixada americana em Manágua diante da violência nas ruas.

- Diálogo em dúvida -

Antes de revogar a reforma do sistema de pensões, Ortega havia pedido um diálogo com o setor privado para superar o impasse.

No entanto, o COSEP declarou em um comunicado que condiciona sua participação no diálogo ao fim da repressão aos manifestantes e à censura aos veículos de imprensa, assim como a uma ampla participação cidadã nas conversações.

Enquanto isso e diante de versões de que a Conferência Episcopal se reuniria com Ortega em busca de uma saída para a crise, o bispo auxiliar de Manágua, Silvio Báez, descartou a possibilidade.

"Não vejo condições para nenhum diálogo com o governo da Nicarágua", declarou no Twitter.

"É preciso deter a repressão, libertar os jovens presos, restituir a transmissão do (censurado) Canal 100% Noticias e discutir a democratização do país com todos os setores", acrescentou o prelado.

O papa Francisco declarou no domingo estar "preocupado" com a situação e pediu a "cessação de toda violência".

Para o estudante Ramírez, a onda de mortes e censura desatada nos dias de protesto encerraram a possibilidade de um diálogo.

"Não podemos mais aceitar este governo, estamos protestando para que o casal Ortega Murillo deixe o poder", sentenciou Ramírez.

No entanto, o universitário admitiu que o movimento que pede a saída de Ortega e sua esposa e vice-presidente Rosario Murillo do poder carece de liderança e planos para o futuro sem o atual presidente.

Em sua opinião, os jovens que foram às ruas não se sentem representados pelos partidos da oposição, que se dobraram a Ortega nos últimos anos, nem pelas cúpulas empresariais que o apoiaram desde que voltou ao governo, em 2007.

"Desde a Revolução Sandinista de 1979, temos os mesmos líderes políticos, eles não deixam que surja mais ninguém. Nós queremos uma liderança nova que represente os jovens", afirmou Ramírez.

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