ASSINE
search button

Temer assume presidência do Mercosul em meio às dúvidas sobre a continuação de seu governo

"Crise tira legitimidade e credibilidade das ações internacionais do presidente", diz especialista

Compartilhar

A entrada do Brasil na presidência temporária do Mercosul, na última sexta-feira (21), acontece num momento em que o país vê na berlinda a capacidade de manter o papel de protagonista no grupo, principalmente em função das dúvidas com relação ao futuro próximo do governo. O presidente Michel Temer participou da 50ª Reunião do Conselho do Mercado Comum e Cúpula do Mercosul e Estados Associados, em Mendoza, na Argentina, e debateu entre outros temas as negociações para um acordo do bloco com a União Européia - que se estende há anos -, e a situação dramática da Venezuela. Sacudido pela crise política, Temer assume a presidência do bloco pelos próximos seis meses, e a avaliação de especialistas é de que o presidente está limitado pela falta de credibilidade internacional.

“A crise retira a legitimidade e credibilidade das ações internacionais do presidente. Quando você sai do país nessa posição, sai sem segurança e desacreditado pelas autoridades internacionais”, disse Marcelo Fernandes de Oliveira, professor de Relações Internacionais na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) de Marília. 

>> Meirelles dorme durante discurso de Temer na Cúpula do Mercosul

Nos últimos seis meses, a Argentina esteve na presidência do Mercosul. Ao chegar a Mendoza, na noite desta quinta-feira (20), Temer falou sobre a expectativa para o período em que o Brasil estiver exercendo o cargo. "Espero continuar o trabalho que o presidente [da Argentina, Maurício] Macri desenvolveu com tanta propriedade ao longo desse semestre", afirmou em entrevista. 

>> Acordo entre Mercosul e UE depende de definição do bloco europeu, diz ministro

Para o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, a capacidade de Temer liderar o processo depende da percepção dos parceiros sobre sua permanência ou não no cargo.

“Se há duvidas da minha capacidade de me manter no governo, a minha palavra vale menos nas relações internacionais, porque qualquer interlocutor vai se perguntar: será que esse governo ainda vai estar onde está daqui alguns meses? E além disso, vai se perguntar se o próximo governo que vai suceder ao Temer vai manter as mesmas posições do anterior”, explicou Stuenkel.

A viagem à Argentina ocorre em meio a uma agenda turbulenta da presidência para reforçar o apoio dos partidos da base aliada. Nas últimas semanas, Temer tem recebido diversos parlamentares a fim de impedir o avanço da denúncia por corrupção passiva apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o peemedebista.

“No caso do Brasil há outro fator importante além da instabilidade. O governo já tem capacidade menor em função da maneira que chegou ao poder, e tem uma rejeição doméstica bastante elevada. Isso aos olhos dos outros países reduz espaço para iniciativas”, acrescentou Stuenkel, completando: “O foco é dizer que, apesar da crise, o projeto continua”.

Venezuela de Maduro

O presidente argentino abriu a sessão plenária da cúpula nesta sexta, mencionando o conflito venezuelano. "Como membros do Mercosul, reiteramos o nosso apelo para a paz, a liberdade dos presos políticos e a rápida adoção de um calendário eleitoral na Venezuela, e reiteramos a nossa vontade de estabelecer em acordo com o governo e a oposição um grupo de contato para mediar um diálogo entre as partes em conflito ", afirmou Macri.

Além dos líderes dos países-membros do bloco, Macri, Temer, Horacio Cartes (Paraguai) e Tabaré Vázquez (Uruguai), estiveram presentes, como representantes de Estados associados ao Mercosul, Michelle Bachelet (Chile) e Evo Morales (Bolívia). 

Em comunicado da chancelaria, a Venezuela qualificou a cúpula de Mendoza de “ilegal” e considerou “alarmante o permanente uso temerário do mecanismo de integração a serviço de uma política de perseguição ao governo e ao povo da Venezuela”. O país está suspenso do Mercosul desde dezembro do ano passado devido ao descumprimento das obrigações comerciais que se comprometeu a assumir em 2012, quando entrou no bloco. 

A forte pressão internacional sobre o presidente venezuelano Nicolás Maduro se soma à ameaça de sanções por parte dos Estados Unidos, após meses de protestos opositores que deixaram mais de 100 mortos. 

“Durante os governos do PT, o Brasil sempre foi alinhado com a Venezuela, com um giro a esquerda. A partir do momento que a Dilma cai, o governo passa a ter bastante dificuldade de se relacionar. Temer tem posição dura com relação ao Maduro”, disse Marcelo Fernandes da Unesp.

A chanceler venezuelana Delcy Rodríguez chegou a dizer que o Brasil é uma "vergonha mundial", fazendo uma referência ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, no ano passado. Ao longo de todo o processo de impeachment de Dilma, países vizinhos como a Venezuela, a Bolívia e o Chile se posicionaram contra o afastamento da então presidente.

O então ministro das Relações Exteriores José Serra chegou a determinar ao Itamaraty que enviasse a todas as embaixadas brasileiras no mundo uma cartilha orientando os diplomatas a combater a tese de que Dilma foi vítima de um golpe. Primeiro chanceler do governo Temer, Serra também mudou as regras do Mercosul e impediu que a Venezuela assumisse a presidência temporária do bloco. Seu sucessor, Aloysio Nunes, tem retórica ainda mais agressiva. Todos os dois, entretanto, estão envolvidos na Lava Jato.

>> Serra confirma suspensão da Venezuela do Mercosul

>> Serra: Venezuela entrou no Mercosul por golpe e não pode assumir a presidência

>> Chanceler brasileiro diz que convocação de Constituinte na Venezuela é golpe

>> Aloysio Nunes pede mais pressão internacional sobre Venezuela

“Desde antes do impeachment, os tucanos batalhavam contra o Maduro no Congresso, que é a posição dos americanos e da direita espanhola. Quando o Temer assumiu, os tucanos imprimiram essa política induzindo Serra a votar pela exclusão da Venezuela”, disse Reginaldo de Moraes, professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

“O engraçado é Temer dizer que a Venezuela precisa voltar para democracia e fazer eleições, logo ele que não foi eleito no Brasil”, completou.

>> Brasil defende calendário eleitoral e diálogo político na Venezuela

Argentina de Macri

Com a crise política que atinge o Brasil e corrói a credibilidade internacional do governo, a vizinha Argentina viu a oportunidade de se tornar protagonista da América do Sul. O presidente Mauricio Macri, no cargo desde dezembro de 2015, tem despertado a simpatia de chefes de Estado e de Governo, como a chanceler alemã, Angela Merkel, o chinês Xi Jinping e até o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama, que o chamou de "líder" da região.

Mas essa nova postura do governo argentino não seria suficiente para tirar a tradicional liderança do Brasil. "Não se pode comparar os dois países. O peso econômico do Brasil é muito maior do que o da Argentina. Porém, em função da crise política, em curto prazo, o presidente Macri tem uma visibilidade e uma presença internacional maior porque a situação da Argentina é ‘menos pior’ do que no Brasil", avaliou Stuenkel.

O especialista disse que, apesar dos problemas econômicos e também políticos da nação vizinha, "Macri representa uma narrativa muito clara sobre como a Argentina pretende superar as dificuldades", coisa que não existe no Brasil. “Alguns passos podem ser dados, mas há a percepção de que o Brasil não tem um caminho para sair da crise", ressalta.

Espera-se uma postura do Brasil como líder, já que é a nação que faz fronteira com praticamente todos os países sul-americanos. No entanto, a ausência já se fez presente como na crise venezuelana, que já causa um fluxo migratório maior para o norte do país. “O Brasil sumiu tanto do cenário internacional que já não é um país relevante. Macri é o Temer de outro modo, com um pouco mais de credibilidade por ter sido eleito, mas é relativo. Não creio que na América Latina, o ocaso do Brasil seja a ascensão de outros países. Significa que o continente virou uma grande feira disponível, isso é a política que mais interessa hoje aos norte-americanos”, concluiu Reginaldo. 

Gafes Internacionais

Em entrevista recente ao Jornal do Brasil, o professor de Relações Internacionais e Geopolítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Leonardo Valente lembrou a recente viagem de Temer à Rússia e à Noruega, onde ficaram expostos os problemas do Brasil no cenário internacional. 

>> "Temer é uma catástrofe diplomática", diz professor de relações internacionais

O mal-estar diplomático teve início antes mesmo do embarque do peemedebista, quando o Palácio do Planalto anunciou, na agenda presidencial, a viagem para a "República Socialista Federativa Soviética da Rússia". Valente afirmou que “as gafes mostram que Temer não está preparado”, e que "cada gesto nas relações diplomáticas quer dizer alguma coisa". 

>> Temer comete gafes na Noruega e confunde país com 'Suécia'

O especialista disse ainda que o governo brasileiro errou ao tirar o país de um foco importante no Brics (bloco político e econômico composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), lembrando que, sob o comando de José Serra no Ministério de Relações Exteriores, o país deu as costas a países da América Latina e assistiu à retirada do embaixador cubano em Brasília por determinação do presidente Raúl Castro.

“Temer virou até piada em rede social com suas famosas caminhadas pelos salões do G20 sem que ninguém falasse com ele”, disse Reginaldo, lembrando da rápida passagem do presidente pela cúpula do G20 [formado pelas maiores 19 economias do mundo e a União Europeia] em Hamburgo, na Alemanha, no início do mês. “Isso significa que ninguém leva a sério o governo dele. O Brasil virou, infelizmente, um país anão no mundo”, completou. 

>> Temer fica fora de lista em programa do G20, em viagem de última hora

A viagem de Temer ao G20 havia sido inicialmente cancelada, mas o governo reavaliou a decisão e embarcou para a Alemanha de última hora. A agenda esvaziada, sem nenhuma reunião bilateral, ainda foi somada por outra gafe: o programa entregue à imprensa apontava o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, como chefe da delegação, no lugar de Temer.