Projeto ajuda a repovoar vilarejo italiano com imigrantes

Sant'Alessio in Aspromonte abriga projeto de acolhimento

Uma grade pintada com as bandeiras dos países de origem dos imigrantes, como Gana, Eritreia, Senegal, Costa do Marfim e Líbia, dá as boas-vindas aos visitantes que chegam a Sant'Alessio in Aspromonte, pequena cidade de menos de 400 habitantes situada na região italiana da Calábria, bem no "bico da bota".

E seriam muito menos não fossem pessoas como a nigeriana Annabel, de 23 anos, refugiada que desembarcou na Itália após a perigosa travessia do Mediterrâneo, que estão ajudando a repovoar o vilarejo. Em meados de 2012, Sant'Alessio in Aspromonte contava com 317 moradores, número que subiu para 357 em 2017.

Pode parecer pouco, mas esse crescimento representa um aumento populacional de 12,6% em menos de quatro anos. A cidade passou a ser repovoada por meio do Sistema de Proteção para Solicitantes de Refúgio e Refugiados (Sprar, na sigla em italiano), uma rede de acolhimento nascida da colaboração entre o Ministério do Interior, a Associação Nacional das Prefeituras Italianas (Anci) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

Sua implantação em cada município depende da capacidade e da vontade das administrações locais, e Sant'Alessio in Aspromonte soube usar o Sprar para fazer com que uma vila de montanha condenada ao esvaziamento - como tantas outras na Itália - voltasse à vida.

A iniciativa é patrocinada pelo prefeito Stefano Ioli Calabrò, de 43 anos, e coordenada pelo médico Luigi De Filippis, que já trabalhou no atendimento a deslocados externos. "Falamos de sujeitos que vivem, no drama de sua viagem rumo a uma vida melhor, condições pessoais particulares", explica De Filippis.

"Mulheres, sobretudo solteiras, grávidas, pais solteiros com filhos menores, pessoas submetidas a torturas, estupros ou outras formas graves de violência psicológica, física ou sexual", acrescenta.

Segundo o médico, o projeto prevê uma inserção "programada" dos solicitantes de refúgio no tecido social da cidade. "O ponto central dessa integração, que acontece por etapas, de uma forma não invasiva para a comunidade local, é a convivência recíproca e as oportunidades econômicas que essa presença oferece ao vilarejo. O objetivo é devolver a autonomia a essas pessoas, fornecendo instrumentos e competências para que elas se tornem parte ativa da sociedade italiana", diz.

É o caso de Annabel, que quer se tornar "cabeleireira das senhoras" e aceitou participar de um estágio formativo no âmbito do Sprar, que também abriu oportunidades de trabalho para jovens italianos que sofrem com o desemprego - a taxa de desocupação entre cidadãos de 15 a 24 anos gira em torno de 40%.

Isabella Trombetta, por exemplo, usa sua graduação em relações internacionais pela Libera Università Internazionale degli Studi Sociali (Luiss), de Roma, para ensinar deslocados externos no sul da Itália, a principal porta de entrada na Europa para quem foge de guerras, perseguições e da fome em seus países.

"Alguns imigrantes foram inseridos nos serviços de manutenção de jardins, e outros estão empenhados em laboratórios de carpintaria, recuperando os bancos de madeira dos espaços públicos", salienta o prefeito Calabrò.

As pessoas que participam do projeto ainda ganham alojamento gratuito, assistência sanitária e legal e formação profissional e linguística. "É uma integração que não perturbou o equilíbrio e a tranquilidade da população residente", conta Angela Spagna, que também coordena a iniciativa.

Apenas em 2017, mais de 26,8 mil deslocados externos desembarcaram na Itália pela rota do Mediterrâneo Central, e outros 603 morreram ou desapareceram durante a travessia. A maioria dessas pessoas é proveniente da África Subsaariana.