'WSJ': Filho de Pablo Escobar tenta fazer as pazes com o passado

“Ele era cheio de contradições”, disse Marroquín, hoje com 39 anos, sobre seu pai

Quando tinha 16 anos e se preparava para se tornar um gângster, o homem que hoje se chama Sebastián Marroquín prometeu vingar a morte de seu pai, o narcotraficante Pablo Escobar, que foi perseguido e morto pela polícia colombiana em 1993. Hoje, Marroquín adota uma atitude muito diferente da ultraviolenta ascensão e queda do seu pai. Nos últimos cinco anos, ele tem atuado como palestrante motivacional, compartilhando lições tiradas do extraordinário início da sua vida, quando o seu nome era Juan Pablo Escobar. Rechonchudo e de cabelos encaracolados, Marroquín tem uma notável semelhança com talvez a figura mais famosa do tráfico de drogas na América Latina. Frequentemente vestido de preto em respeito as mais de 3 mil vítimas de seu pai, falando em um tom sombrio e monótono, ele têm atraído a atenção de multidões, desde a Cidade do México até São Paulo, com suas descrições de Escobar tanto como um pai amoroso como um chefão ameaçador — um homem monstruoso a ponto de explodir um avião em pleno voo, detonar carros bombas e oferecer recompensas pela cabeça de centenas de policiais.

“Ele era cheio de contradições”, disse recentemente Marroquín, hoje com 39 anos, para cerca de 1.500 pessoas que lotavam um teatro em Guadalajara, cidade mexicana fortemente atingida por uma crescente onda de violência devido ao tráfico de drogas. “Apesar de seu comportamento ruim fora de casa, ele era um pai amoroso, um bom conselheiro e meu melhor amigo.”

Segundo reportagem do Journal ele acrescentou que o chefão que ajudou a fundar o cartel de cocaína de Medellín “nunca me disse para seguir seus passos”. Na dedicatória do seu livro “Pablo Escobar, Meu Pai – As histórias que não deveríamos saber”(Editora Planeta, 2015), escreveu: “Ao meu pai, que me ensinou qual caminho não tomar.” Como um adolescente de cabeça quente, o jovem Escobar quase se juntou ao cartel de Medellín depois que seu pai foi morto a tiros. Mas em vez de se tornar o que chama de uma “versão 2.0 de Pablo Escobar”, Marroquín reconstruiu sua vida na Argentina e ressurgiu como um palestrante movido pela culpa e determinado a redimir o papel do pai na guerra provocada pelas drogas que atingiu a Colômbia nos anos 80 e início dos 90. Com uma apresentação de slides de 90 minutos, Marroquín adverte aos jovens para que resistam ao dinheiro fácil oferecido pelos grupos de traficantes e defende que as autoridades públicas legalizem os narcóticos para tirar o poder das mãos de figuras do submundo. Enquanto está viajando, ele procura vítimas da guerra às drogas para pedir desculpas em nome do seu pai.

O WSJ afirma que em suas palestras, Marroquín compara sua infância em Medellín a como crescer em um parque temático. Aos 13 anos, ele tinha dezenas de motos e bugues e seu próprio apartamento. Ele brincava com zebras e cangurus no zoológico particular do seu pai e ganhou uma Ferrari Testarossa no seu aniversário de 14 anos. O adolescente dirigiu o carro apenas três vezes. A polícia estava intensificando as buscas por Escobar e a família precisou se esconder. Marroquín lembra de uma ocasião em que ficou agachado com seu pai em um apartamento repleto com milhões de dólares em dinheiro, sentindo fome porque era arriscado demais dar um pulo até o supermercado. “Quanto mais milhões tínhamos”, disse ele à multidão em Guadalajara, “maiores eram os problemas”. Marroquín guardou isso como lição após a morte do seu pai. O cartel rival de Cali prometeu matar os sobreviventes da família de Escobar, então o governo colombiano deu a eles novas identidades. Marroquín e sua mãe, irmã e namorada deixaram a Colômbia. Eles passaram pelo Equador, Peru, Brasil e África do Sul antes de finalmente chegar a Moçambique, país devastado pela guerra onde, em troca de joias e objetos de arte, autoridades corruptas prometeram residência permanente. Marroquín se lembra do movimento no aeroporto de aviões da Organização das Nações Unidas descarregamento alimentos para vítimas famintas e de uma casa alugada que cheirava a esgoto a céu aberto. Em um momento de desespero, ele pensou em se enforcar com uma guia para cachorro. O grupo deixou o país quatro dias depois.

O jornal norte-americano fala que eles se instalaram na Argentina, onde Marroquín furtivamente andou por Buenos Aires usando enormes óculos de sol, certo que assassinos estavam atrás dele. O jovem, acostumado a ter motoristas e empregados à disposição, de repente teve que passar a andar de ônibus e comer no McDonald’s. Marroquín se tornou arquiteto, uma decisão que ele atribui diretamente aos muitos edifícios que seu pai trouxe abaixo com bombas. Apesar de crescido em mansões tão grandes que carros podiam ser dirigidos nas entradas, hoje ele vive em um apartamento apertado com sua mulher e seu filho de três anos. Mas Marroquín não pôde apagar seu passado. Ele e sua mãe foram presos por um breve período devido a acusações de lavagem de dinheiro depois que a imprensa argentina descobriu suas verdadeiras identidades no fim dos anos 90. As acusações foram removidas pela Suprema Corte Argentina em 2006, mas ele diz que, desde então, as empresas têm adotado uma postura desconfiada quanto a contratá-lo. Então Marroquín está agora abraçando a história da sua família. Em 2012, ele criou uma empresa de roupas em Medellín com camisetas estampadas com imagens raramente vistas do seu pai e mensagens encorajando as pessoas a não seguirem o seu caminho. Críticos têm o acusado de ganham dinheiro com a tragédia, mas Marroquín diz que ele tem mais direito de reivindicar viver do seu passado que as empresas que ainda lançam livros, filmes e shows de televisão sobre o seu pai — o mais recente deles a série “Narcos”, da Netflix, na qual o ator Wagner Moura faz o papel de Escobar.

The Wall Street Journal relata que Marroquín passa a maior parte do seu tempo dando palestras e divulgando seu livro, que tem sido um grande sucesso na América Latina. As aparições públicas podem ser dolorosas, diz ele. Na parte de perguntas e respostas em Guadalajara, ele foi questionado por que não usa a fortuna da sua família para compensar as vítimas do seu pai. Ele respondeu que não há mais dinheiro, que ele foi confiscado pelo governo colombiano ou roubado ou confiscado pelo cartel de Cali. Inés Sarmiento, uma colombiana que estava na plateia, disse que, devido à violência de Escobar, os colombianos no exterior com frequência são vistos como criminosos. Sarmiento, cujo pai foi sequestrado no auge da violência da guerra às drogas na Colômbia, acrescentou: “Eu sofri devido às coisas que o seu pai fez.” Depois da palestra, Marroquín a encontrou. De joelhos, ele apertou a mão direita dela entre as suas e pediu desculpas.