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'WSJ': A estratégia da LVMH para a grife Loro Piano é não mudar quase nada

A atração do patriarca do grupo LVMH com a Loro Piano levou-o a pagar US$ 2,6 bi por 80% da empresa 

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Matéria publicada no The Wall Street Journal nesta sexta-feira (18), conta que desde menino, uma tradição nos verões de Antoine Arnault era acompanhar o pai, Bernard Arnault, presidente do Grupo LVMH , a uma ensolarada praça italiana em Portofino para comprar camisas polo e suéteres na loja Loro Piana que havia ali. “Era uma das únicas marcas fora do grupo que meu pai e eu gostávamos de usar”, lembra Antoine, hoje com 38 anos. “É um estilo clássico, e era disso que gostávamos.” Tamanha era a afinidade do patriarca da família Arnault com a Loro Piana que, em 2013, a LVMH pagou US$ 2,6 bilhões por 80% da empresa familiar, uma grife de têxteis, vestuário e acessórios de altíssimo luxo. Foi a maior aquisição desde que a LVMH desembolsou US$ 5,2 bilhões por 50,4% da joalheria italiana Bulgari, em 2011, arrematando a parte da família Bulgari. Alguns analistas do mercado ficaram surpresos, sobretudo porque a Loro Piana nunca esteve oficialmente à venda.

“Era um negócio de família e não estava no mercado, era intocável”, diz Antoine Arnault, que hoje preside o conselho de administração da Loro Piana e comanda a Berluti, grife de roupa masculina da LVMH. Na quietude de sua sala na sede da Berluti em Paris, na rue du Faubourg Saint-Honoré, Arnault exala elegância. Foi o falecido Sergio Loro Piana, que na época dirigia a empresa junto com o irmão Pier Luigi, quem levou a ideia à LVMH. “Eles disseram que tinham decidido vender a empresa e que, se estivéssemos interessados, éramos os escolhidos”, diz Arnault. O contrato foi rapidamente redigido e em duas semanas estava assinado.

São sete fábricas na Itália e fazendas de criação de vicunha na região andina do Peru e da Argentina (é preciso a lã de 35 vicunhas para fazer um único casaco Loro Piana, e cada animal só pode ser tosado a cada dois anos). Há inclusive uma fábrica na Mongólia Exterior para transformar a fina pelagem da cabra hircus em cashmere.

Havia uma única condição para o acordo com a LVMH. “O Sergio pediu que eu nunca colocasse um estilista famoso na empresa”, diz Antoine Arnault. “Ele tinha visto o caso de outras grifes em que o estilista se converte na marca. Mas, ainda que não tivesse dito nada, não teria feito isso. Teria sido uma heresia e o oposto do que o cliente quer.” Fora todos os detalhes a acertar quando um conglomerado assume o comando de uma empresa familiar com cadeias de suprimento complexas e mais de 2.500 funcionários, até aqui o maior desafio para Arnault e o atual diretor-presidente, Matthieu Brisset, tem sido manter o controle da qualidade da marca e sua atitude geral de serenidade no vestir. “Recebemos tantas cartas na época da compra”, diz Arnault. “Nossa meta é não mudar muita coisa.”

A empresa remonta ao início do século XIX, quando os Loro Pianas se estabeleceram como mercadores de tecidos de lã. Na virada do século, a família já tinha dois lanifícios próprios. Em 1924, o empreendedor Pietro Loro Piana, tio-avô de Pier Luigi e Sergio, estabeleceu o nome da empresa; o negócio viveu uma fase de ouro nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, quando o interesse por tecidos luxuosos aumentou tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Décadas depois, em 1975, Sergio e Pier Luigi assumiram o negócio. O investimento dos irmãos em maquinário de produção ajudou a proteger a empresa quando a Ásia superou a indústria têxtil europeia na década de 80. A Loro Piana conseguiu se manter, contando com uma rede de fábricas italianas que fazem a fiação, o tingimento, a tecelagem, a produção e o acabamento de roupas, algumas 24 horas por dia, sete dias por semana.

Enquanto Sergio atuava como especialista de produto, exercendo um controle da criação que exigia a máxima funcionalidade de cada peça, o irmão Pier Luigi tinha um lado mais aventureiro. Ele é chamado carinhosamente de Pigi pela equipe e, nesses anos todos, já foi visto subindo a cordilheira dos Andes com pastores de vicunha, participando de cerimônias aborígenes com criadores de ovinos na Nova Zelândia e navegando pelo lago Inle em Mianmar atrás da fibra da raiz de lótus, que é extraída da planta aquática e, mais tarde, combinada pela Loro Piana com cashmere e seda. Do processo manual de tecelagem surge um lenço levíssimo de US$ 2.550.

Em vez de desfiles, campanhas publicitárias e coleções a cada temporada, a empresa prefere eventos discretos de patrocínio como o da Piazza di Siena, uma das principais competições equestres da Europa, disputada no hipódromo rodeado de cedros da Villa Borghese, em Roma; a regata yacht na Sardenha; e o rali de carros antigos (o mais recente teve a largada e a chegada em Meiji Shrine, em Tóquio). “Eventos e esportes superpopulares como o futebol ou a [regata] Taça América não nos interessam, pois atraem muita gente e custam muito dinheiro”, diz Loro Piana. Na Piazza di Siena, por exemplo, o belo brasão azul e amarelo da Loro Piana é estampado em cartazes, banners, nas jaquetas de membros de equipes, nos cobertores dos cavalos. Uma pequena tenda serve de vitrine da linha equestre da grife — incluindo a conhecida Horsey Jacket. Leve, com bolsões e um tecido que não faz barulho, essa parca não assusta os cavalos.

Agora que Pier Luigi Loro Piana é bilionário e os três filhos já estão criados, daria para imaginá-lo entregando-se ao doce estilo de vida Loro Piana — de velejar, praticar esportes equestres e o automobilismo — ao lado da mulher, Laura. Além de quatro casas — Milão e Quarona, na Itália, em Nova York e em St. Moritz —, Pier Luigi é dono de um iate de 84 pés, o My Song, que, segundo ele, é o único lugar em que pode desfrutar de mais de três noites consecutivas de bom sono. Mas o executivo está feliz de seguir na Loro Piana como uma espécie de consultor. “Minha qualidade de vida não mudou”, diz, com uma risada. “Gosto de trabalhar — além do mais, não dá para comer mais de um bife por dia.”