Cristina Kirchner entrou nos últimos cem dias de seu mandato mas, quando sair da Casa Rosada, não vai deixar as convicções na porta. É o que diz um artigo do jornal argentino Página 12, de Nicolás Lantos, publicado nesta quinta-feira (10/09). Ontem participou de um ato com o candidato do governo para sucedê-la, Daniel Scioli, e o ex-presidente brasileiro, Luiz Lula da Silva, e os comprometeu a aprofundar o rumo que a política exterior argentina tomou nos últimos anos. 'Daniel, vamos ter que aprofundar a integração da região latino-americana porque aí está nosso lugar e nosso destino', disse Lula ao governador de Buenos Aires. 'Lula, você tem que ser o embaixador para que a Argentina integre o Brics e passe a se chamar Bricsa. Esse é nosso lugar e que nesse Bricsa entrem mais países emergentes, onde estão os povos que podem trabalhar', disse Scioli ao líder do PT. Em seu discurso, a mandatária também criticou duramente os países europeus, a quem responsabilizou pela crise humanitária pelas migrações.
“Quando alguém exerceu a presidência como fez Lula, nunca deixa de ser presidente”, afirmou Cristina no começo do ato, ao saudar o brasileiro. Esses detalhes em seus discursos não são casuais: nessa frase assumiu também a responsabilidade que le puede caber a ela mesma a partir de dezembro, quando deixar seu cargo depois de oito anos, mesmo período durante o qual Lula ocupou o Palácio do Planalto. Por isso, ao mesmo tempo em que reforça com sua presença a campanha presidencial de Scioli também marca o rumo que deverá seguir seu eventual governo em alguns temas chave, como a política internacional.
A presidenta falou em “defender” as conquistas dos últimos 12 anos “contra pequenos grupos de poder” que “se vê claramente em toda a região” que tentam “voltar a instalar as políticas neoliberais que levaram ao fracasso, à fome e à desocupação”. Por isso, acrescentou, “é preciso se fortalecer” através da “força das ideias, a força das convicções, a força que é preciso ter para defender o que foi conseguido” frente às tentativas de restauração em todos os países da América do Sul. A alternativa é a “integração da região” seguindo as linhas de “uma etapa inédita na história das relações entre Brasil e Argentina” inaugurada por Lula e Néstor Kirchner. “Sempre nos enfrentaram, não era coincidência. É que precisavam que Argentina e Brasil ficassem divididos para que nos subordinassem”.
A presidente argentina também voltou a criticar um artigo do jornal britânico Financial Times que responsabilizava os Brics pela queda do comércio mundial. “O mundo caiu e nós, os emergentes, que temos um elo comum, não somos países de especulação financeira. Somos um centro de produção, de trabalho. E agora dizem que a culpa do não crescimento do comércio internacional é dos emergentes. A culpa da crise é dos que criaram bolhas financeiras, os que especularam, os que criaram falsas hipotecas, os que esvaziaram bancos, a única coisa que os povos fizeram todos estes anos foi trabalhar e produzir para o resto do mundo”, apontou Cristina Kirchner.
Por último, a presidenta fez referência à crise humanitária do Oriente Médio e à postura da União Europeia diante da imigração. "Por favor, que ninguém nos venha a citar como exemplo como alguns países do Norte. Eu não quero parecer com países que expulsam imigrantes e deixam crianças morrerem nas praias, disse ela. Nós, país de imigrantes que desceram dos barcos, país que recebeu nossos avós, somos um exemplo. Eu quero ser como nós somos: solidários, trabalhadores, jugados pela produção, pela indústria, o crescimento e o desenvolvimento. Esses são os grupos de países com os quais temos que nos identificar e dos quais temos que fazer parte. Por aí está o futuro, o outro é somente a degradação da condição humana'.