Em entrevista ao Washington Post, Dilma diz que sofre 'preconceito de gênero'

A relação da presidente Dilma Rousseff com a Casa Branca derrapou há dois anos quando ela soube que a Agência de Segurança Nacional havia grampeado seu celular. Na próxima semana, com a economia do Brasil mergulhada em problemas, seus números de popularidade chegando ao nível mais baixo desde que assumiu a presidência e os escândalos políticos cada vez maiores, Rousseff vai visitar Washington para restabelecer as relações com o presidente Obama e atrair investimentos dos EUA. Ás vésperas de viajar para os EUA, ela conversou com Lally Weymouth, do jornal The Washington Post em sua residência oficial, em Brasília.

Na última vez em que estive aqui, a economia brasileira estava crescendo, mas agora enfrenta dificuldades. Sua taxa de inflação está alta. O boom das commodities acabou. Seu novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, está implantando duras medidas de austeridade. Essa é uma mudança marcante para a Sra. Estar fazendo um apelo à austeridade. Como o Brasil vai sair dessa situação?

O Brasil tem lutado por seis ou sete anos para não adota medidas que reduziriam as oportunidades de emprego ou de renda.

Mas isso funcionou?

Funcionou durante sete anos. Não vimos nenhuma redução nos níveis de emprego ou renda.

Mas depois vocês tiveram o boom das commodities, que agora caiu por terra, e há também a desaceleração da China.

Sim. Experimentamos o fim do super-ciclo do boom das commodities.

No passado, a Sra. achava que o  governo poderia fazer tudo?Não, eu não acredito nisso. Se você acredita que o estado pode tomar conta de tudo, você não está levando em consideração o fato de que a economia é muito maior do que isso. O Brasil tem um setor privado muito forte. Não queríamos que o setor privado experimentasse uma depressão. Baixamos impostos para o setor privado.

Vocês estão com um déficit agora?

Não é muito alto porque nossa moeda se desvalorizou.

Agora, com seu novo ministro da Fazenda, a Sra propôs medidas de austeridade e cortes no orçamento. Seu próprio partido se opôs a essas mudanças, assim como alguns na oposição. A Sra. acredita que pode aprovar essas medidas no Congresso?

Sim, o atual programa não é administrado pelo meu ministro da Fazenda — ele é, é claro, é administrado pelo meu governo. Temos absoluta certeza de que é essencial implantar todas as medidas que são necessárias, não importa o quão duras elas sejam, com o objetivo de retomar as condições para o crescimento no Brasil. Algumas medidas são fiscais. Outras são estruturais.

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As pessoas dizem que a Sra é uma gerente. Mas também dizem que desde as últimas eleições, a Sra mudou e decidiu dar poder a pessoas como seu ministro da Fazenda e seu vice-presidente, Michel Temer — para permitir a Temer que ele negocie com o Congresso.

Você já ouviu alguém dizer que um presidente homem coloca seu dedo em tudo? Eu nunca ouvi isso.

Então a Sra. acha que esse é um comentário sexista?

Eu acredito que há um pouco de preconceito sexual ou de gênero. Eu sou descrita como uma mulher dura e forte que coloca seu nariz em todos os lugares onde não deveria, e eu sou [dizem] cercado por homens muito bonitos.

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Sua taxa de aprovação está em 11%. A Sra. deve se preocupar com isso...

É preciso conviver com as críticas e o preconceito. Não existe um plano pronto para dizer, “Este é o caminho certo, este é o caminho errado.” Eu não tenho qualquer problema com o fato de cometer erros. Quando se comete um erro, é necessário mudar. […] Em qualquer atividade, incluindo o governo, você deve, incessantemente, fazer ajustes e mudanças. Se não fizer, a realidade não vai esperar por você . O que muda é a realidade

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A Sra. vê uma luz no final do túnel para os problemas da economia do  Brasil?

Nossa expectativa é que no ano que vem estaremos numa situação muito melhor. E  nos anos seguintes, vamos começar a crescer na chamada “nova taxa normal”. O mundo não vai mais crescer nas taxas do passado. O FMI diz que o mundo não vai crescer abaixo de 3,5% — e nem isso é garantido.

Qual é o legado que a Sra. deseja deixar?

Eu acredito que a parte mais importante do meu legado é de garantir que uma grande redução da desigualdade ainda é possível. Eu espero que no final do meu mandato, eu terei construído as condições para tornar esses ganhos permanentes. Nós conseguimos levar 50 milhões de pessoas para a classe média, e nosso maior objetivo é que o Brasil se torne um país de classe média.

E sobre as relações do Brasil com a África?

A África será sempre um continente onde teremos que desempenhar um papel ativo, porque temos uma dívida humana, social e cultural em relação a África. Cinquenta e dois por cento da população brasileira se declaram de origem negra. Somos o maior país negro fora da África. As nossas relações com a África são, em última instância, uma reabilitação da nossa história passada, considerando as práticas de escravidão que prevaleceu no nosso país desde o século 16. Este país viveu sob a escravidão até 1888, e deve superar a ferida histórica deixada pela escravidão.

A desigualdade diminuiu durante seu primeiro mandato, mas pode estar aumentando agora devido à situação econômica. Há o risco das pessoas irem às ruas se o desemprego aumentar?

Eu não acredito nisso.

A Sra. não se preocupa com isso?

É claro que me preocupo, e tenho me preocupado com isso desde o primeiro dia. Houve um aumento no desemprego nos últimos dois anos. Mas antes disso, nós já havíamos criado 5,5 milhões de empregos. Nós queremos levar adiante um ajuste rápido, porque queremos reduzir o efeito do desemprego. Hoje nossa taxa de desemprego está entre 6 e 7%, o que não é alto.