Vitória dos 'sem-partido' na Espanha repercute no Brasil e no mundo

Com discurso mais radical, novas prefeitas de Barcelona e Madri rompem bipartidarismo

O mundo assistiu neste domingo (24/05) à vitória de uma nova esquerda, com discurso mais radical, que vem crescendo na Espanha.  

Ada Colau e Manuela Carmena, eleitas respectivamente em Barcelona e Madri, agitaram o panorama político espanhol, dominado há décadas pelo bipartidarismo do conservador PP (do presidente Mariano Rajoy) e do socialista PSOE.

A ativista Ada Colau, venceu a eleição municipal em Barcelona como líder da plataforma cidadã Barcelona em Comum. Mas uma foto antiga da prefeita eleita chamou a atenção, sendo compartilhada inúmeras vezes nas redes sociais. Como uma Sininho espanhola, Colau foi detida por policiais durante protestos em 2013.

Em Madri, a ex-juíza Manuela Carmena do Ahora Madrid ainda vai precisar do apoio do Partido Socialista (PSOE) para governar, o que deve acontecer. 

Nem Carmena e nem Colau pertencem a partidos políticos, mas sim de grupos heterogêneos, como o Podemos de Pablo Iglesias. São movimentos sociais que exploraram a crise de representatividade, renegando os partidos políticos tradicionais. 

A imprensa europeia repercutiu a vitória dessas novas lideranças.

Avanço da esquerda espanhola repercute na política do Brasil

O avanço da nova esquerda na Espanha repercutiu na política nacional. O Jornal do Brasil entrou em contato com Zé Maria (PSTU-RJ) e Luciana Genro (PSOL-RS), candidatos à presidência da república nas últimas eleições, além da senadora Lídice da Mata (PSB-BA), para que comentassem a respeito do novo cenário político que se forma no país ibérico. Os três avaliaram de forma positiva os resultados das eleições, e destacaram o contexto econômico que vive tanto a Espanha quanto a Europa de maneira geral.

Lídice da Mata se mostrou contente com a vitória de Manuela Carmena para a prefeitura de Madri. "(O resultado) cria uma esperança de que a Europa encontre novos caminhos para um campo mais progressista. No caso de Madri, acho positiva a eleição de Carmena, que representa um equilíbrio de forças na Europa, para que medidas de ajuste e aperto fiscal sobre os trabalhadores não sejam hegemônicas. Vitórias como essas ocorrem após o processo de ajuste econômico que impôs ao país sacrifícios e perdas de direitos. É natural que haja uma desilusão dos socialistas, fazendo eles se mobilizarem para criar um novo cenário", disse a senadora.

Zé Maria também vê o resultado como um "descontentamento do povo espanhol", mas salienta que é importante que não ocorra situação parecida com a da Grécia, por exemplo, que elegeu Alexis Tsipras, da extrema-esquerda, mas "não rompeu com o status quo vigente". Ele completa dizendo ser "necessário que esses governos que vão assumir mudem o estado atual das coisas, caso contrário, vão gerar ainda mais decepção no povo".

Já Luciana Genro enxerga a vitória como uma "inspiração" para a esquerda brasileira. A Coordenadora-geral da bancada do PSOL na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e ex-deputada federal considera "muito importante o que está acontecendo na Espanha, porque demonstra um movimento alternativo, que não pertence nem à esquerda e nem à direita tradicionais". Ela completa dizendo que a Espanha criou uma "terceira via" que serve como "inspirador para o Brasil e para o PSOL, que pode também ganhar cada vez mais força nas próximas eleições".

Para empresário espanhol, crescimento da nova esquerda se baseia em discurso populista 

Em São Paulo, o espanhol José Antonio Llorente, presidente da Llorente & Cuenca, maior agência de comunicação da Espanha também comentou o resultado das eleições: “Foi sem dúvida uma mudança grande do mapeamento político. Mas não porque esses novos partidos de esquerda tenham uma influência muito grande. O PP (Partido Conservador) continua sendo o maior. E o Partido Socialista se mantém em segundo. Mas é verdade que esses novos partidos têm uma representação que, embora ainda seja pequena, deve ser considerada”, diz ele que é especialista em Comunicação Corporativa e Financeira. 

“São grupos que possuem um conglomerado de movimentos. A principal mudança é que a política espanhola era uma coisa de dois partidos e agora é de quatro. 

Há tempos víamos que o poder na Espanha estava, em sua grande maioria, nas mãos do PP, que chegava a ter 17 governos estaduais. E tinham a prefeitura em cerca de 45 das 50 maiores cidades do país. Era uma concentração do poder que nunca nenhum partido havia tido antes”, acrescenta.

Llorente diz que essa mudança no panorama político é consequência principalmente da crise econômica. “As pessoas que perderam seus empregos estão muito infelizes. Formou-se uma classe social nova, de indivíduos que pertenciam à classe média e que ficaram sem recursos. Eles têm educação e capacitação, mas ficaram fora do sistema. Então criaram um discurso para eles”, lembrando que as novas lideranças também se apresentam como “de fora do sistema”. 

Mas na opinião de Llorente, o que esses políticos estão dizendo não é suficiente. “Eles não falam da macro-economia, por exemplo. Afinal, isso não é relevante nas eleições. O que as pessoas querem é dinheiro para pagar luz, comida, etc. Então o discurso é focado nesse público.

Na realidade, eles ainda não conseguiram traçar um programa concreto de governo. É um discurso populista que está mais focado nos problemas do que nas soluções”, diz ele. “E são promessas que os partidos não podem sustentar por si só. Não dependem só deles, como estamos vendo na Grécia”.

Temos um panorama econômico melhor do que nos últimos cinco anos. Claro que muitos fatores que contribuem para essa recuperação são externos. O euro mais forte, que facilita as exportações, é um deles. O petróleo mais barato é outro, já que a Espanha depende muito da importação.

Mas a crise deixou muitos danos. E vamos ter que trabalhar muito para sair dela”, conclui Llorente.

Opinião JB

A intelligentzia de alguns países europeus manda afundar barcos transportando imigrantes que não conseguem sobreviver em seu continente de origem. E aqueles que sobrevivem elegem, sem revolução, o tipo de governante que os estimula a violar a lei, expropriando e invadindo.  Como olha o mundo para esse mundo?

Como o mundo de Roma, um dos berços do ocidente, da França da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, da dignidade inglesa, da rigidez alemã vê dois povos como Espanha e Grécia, que podem representar o que há de mais antigo na civilização européia, caminharem na anomia?

Por sorte deles, suas populações são bem menores do que a população do Brasil. A crise econômica que esses países enfrentam há anos é muito mais grave do que a brasileira, e como se vê por lá, a soma de crise e corrupção é um terreno fértil para o populismo, e até o fascismo, insuflado pelo ódio. É isso o que queremos ver no Brasil, que tem 202 milhões de habitantes, sendo que 40 milhões vivendo na pobreza?