“Algum dia, os historiadores vão estar ocupadíssimos debatendo as causas do caos que está tomando conta de grande parte do Oriente Médio. Até que ponto – vão se perguntar – era a consequência inevitável de defeitos profundos comuns a muitas das sociedades e os sistemas políticos dessa região e até que ponto era um reflexo do que os países exteriores fizeram (ou deixaram de fazer)? É o que questiona Richard N. Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores em artigo publicado na segunda-feira (24/02) no Project Syndicate.
“Mas somos nós que devemos enfrentar a realidade e as consequências da atual desordem dessa região. Seja como for que chegamos aonde chegamos no Oriente Médio, trata-se de um lugar muito ruim”, alerta Haass.
Ele continua: “O que está em jogo – humana, econômica e estrategicamente – é enorme. Centenas de milhares de pessoas perderam a vida; milhões delas ficaram sem um lar. Os preços do petróleo estão baixos, mas, se a Arábia Saudita sofresse ataques terroristas ou instabilidade, não seguiria sendo. A ameaça a essa região é grande, vai aumentando e pode afetar pessoas de todas as partes quando os combatentes extremistas voltarem a seu país e outros que nunca se juntaram ao EI se sintam incitados a fazer coisas terríveis. De fato, ainda que o Oriente Médio enfrente numerosas ameaças a sua estabilidade, nenhuma é tão grande, perigosa e imediata como o Estado Islâmico”.
Para Haass, não falta razão aos que se opõem a considerar o Estado Islâmico um Estado. Em muitos sentidos, o EI é um híbrido: é em parte um movimento, rede e organização. Tampouco se define pela geografia, mas controla territórios, conta com cerca de 20.000 combatentes e tem um programa, baseado em sua ideologia.
Naturalmente, a decisão de chamá-lo de ‘ISIS’, ‘ISIL’ ou ‘Estado Islâmico’ importa muito menos, em última instância, do que a de como enfrentá-lo. Toda estratégia deve ser realista. Em um futuro previsível não vai ser possível eliminar o EI, mas sim debilitá-lo.
Além disso, a estratégia deve ser ampla. Primeiro, é preciso reduzir o fluxo de dinheiro ao Estado Islâmico. Preços menores do petróleo ajudam e só há um número determinado de bancos que podem ser roubados, mas a extorsão continua sendo feita, assim como o apoio financeiro de certas pessoas. Os governos e as entidades financeiras devem cortar essas redes.
Limitar a corrente de recrutamento de novos membros é mais essencial ainda. Os países podem fazer mais para dificultar a saída de pessoas para o Iraque ou a Síria. Por exemplo, uma lista de vigilância à escala europeia seria útil, mas nada teria uma repercussão maior do que a decisão por parte da Turquia de deixar de ser a passagem e impor o cumprimento da Resolução 2178 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que pede uma intensa cooperação internacional contra o terrorismo.
Naturalmente, toda estratégia deve confrontar diretamente o EI no Iraque e na Síria. No Iraque, há alguns sinais de que seu impulso se deteve, mas o papel crescente do Irã e as milícias xiitas que ele apóia garantem inteiramente que muitos xiitas iraquianos vão acabar simpatizando com o Estado Islâmico ou até dando apoio a ele, sejam quais forem seus temores. Essa é a razão pela qual no exterior se deve insistir mais em prestar apoio político e militar às forças curdas e às tribos sunitas.
O caso da Síria é muito mais difícil, devido a sua guerra civil e a concorrência no exterior em influir nela. Os ataques aéreos às forças do EI são necessários, mas insuficientes. Como o EI é uma entidade de base territorial, deve haver uma dimensão terrestre para que se possa avançar. Afinal, só as forças terrestres podem tomar e controlar o território.
A melhor abordagem seria de criar uma força multinacional composta por soldados dos países vizinhos, em particular da Jordânia. Os Estados Unidos e os países da Otan poderiam oferecer ajuda, mas os combates devem correr a cargo em grande medida de outros sunitas. O que está ocorrendo nessa região é um choque dentro de uma civilização; permitir ao EI apresentá-lo como um conflito entre civilizações – e a ele mesmo como o verdadeiro defensor do islã – seria um grave erro estratégico”.
“As forças da oposição moderada síria e as curdas locais poderiam formar parte dessa força sunita multinacional, mas não estão em condições de substituí-la. Se não se pode formar essa força expedicionária, é possível acelerar os ataques aéreos, que vão ao menos enfraquecer o avanço do EI e permitir que se ganhe tempo para formular estratégias substitutivas. Nesse caso, o EI seguiria sendo menos um problema para resolver do que uma situação a administrar.
A essa altura a diplomacia não pode desempenhar um papel importante. Não se pode impor uma solução, em vista dos desacordos entre os países vizinhos que possuem interesses na Síria e da força do EI e do governo da Síria. O que a diplomacia pode fazer é reduzir os combates – se não colocar um fim neles – entre o governo da Síria e seu próprio povo, como estão tentando fazer as Nações Unidas em Alepo”, observa o presidente do Conselho de Relações Exteriores.
“O maior perigo em 2015 pode ser perfeitamente uma ampliação da crise regional à Arábia Saudita e Jordânia. O apoio militar e de inteligência para os dois países será essencial, como também maiores medidas para ajudar a Jordânia a suportar sua pesada carga em matéria de refugiados. Nesta época de agitação sem precedentes no Oriente Médio, uma das normas básicas dessa região segue sendo aplicável: por pior que seja a situação, sempre pode piorar”, conclui Haas.