‘El País’: ‘Convulsão, não revolução’ na Grécia

Iglesias, do Podemos, vai comemorar a vitória de Tsipras. Mas ambos dependem só de si mesmos

O jornal espanhol El País publicou nesta segunda-feira um artigo com uma análise sobre a vitória do Syriza, partido radical de esquerda na Grécia. O jornalista Miguel Ángel Bastenier fala sobre como o resultado dessa eleição pode repercutir na Europa e principalmente na Espanha, onde o Podemos, nova força esquerdista vem ganhando terreno. 

“O termo revolução é um dos mais desvalorizados internacionalmente. A vitória do Syriza nas eleições legislativas gregas não muda os termos básicos da democracia, deficiente, mas não inexistente, do país. Mas é uma convulsão porque destrói o bipartidarismo histórico das duas formações políticas que tinham construído, com péssimos materiais, o sistema”, escreve Bastenier.

Ele continua sua análise: “Revolução teria sido se tivessem votado no partido comunista grego, o KKE, que estava fora de lugar, que defendia a saída da UE, da OTAN e, no final, do marco do mundo ocidental. Ao contrário, o Syriza quer fazer bem o que seus antecessores fizeram muito mal; assim como mudar a forma como os profissionais da política grega enxergam o mundo. Ou seja,  renegociar os termos da dívida obtendo uma redução substancial e as condições de permanência da Grécia no euro. A opinião pública não teria lhes permitido outra coisa porque separar-se da moeda comum teria sido sentido como uma derrota nacional. A Grécia, o suposto berço da Democracia no mundo, convertida em uma entidade política de terceira classe. Que humilhação!”

“O Syriza é um amável e voluntarioso partido social-democrata que, se pretende fazer algo radical, seria limpar os estábulos, logicamente de Aúgias, erradicando o clientelismo, a corrupção, a dilapidação, a falsificação da própria essência da democracia; ou seja, uma profunda mudança, radical até, se quiserem, mas que simplesmente é fazer de verdade e profissionalmente o que seus antecessores, a Nova Democracia e o Pasok, tinham transformado em um lúgubre espetáculo”, relembra Bastenier.

Em que medida a vitória de Alexis Tsipras conforta as esperanças eleitorais do Podemos na Espanha?”, questiona. “Por acaso os espanhóis estarão, no dia das eleições, olhando por cima do ombro para o outro extremo do Mediterrâneo para que lhes digam em quem devem votar? Outra coisa é se, com base nos indignados e indignações relativamente similares entre as duas penínsulas, um sentimento mais ou menos comum anima seus respectivos eleitorados. Neste caso não há efeito de contágio. O que acontece é que a doença que se quer erradicar é combatida por procedimentos idênticos nas urnas”, escreve ele.

“Pablo Iglesias, sem dúvida, se alegrou com a vitória de seu compadre Tsipras, mas ambos dependem exclusivamente de si mesmos e da capacidade que têm para atrair eleitores”, observa o jornalista.

“O voto grego não foi, com grande probabilidade, o da fé cega na nova formação esquerdista, mas o do desespero, contra o qual o medo orquestrado pela direita nada conseguiu fazer. É nesse terreno, o das convicções do futuro, em que se consolidam os partidos que chegam quase por surpresa ao poder. O Syriza e sua negociação com a Europa, se a UE entender o que é mais conveniente para ela - uma Grécia dentro em vez de fora - decidirá se a convulsão eleitoral valeu a pena”, conclui o artigo do jornal El País.

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