'Financial Times': Brasil e México, um conto de dois escândalos

O Financial Times publicou nesta quarta-feira (19/11) uma matéria onde faz uma análise sobre as situações atuais de Brasil e México, que enfrentam sérias crises políticas. O jornalista John Paul Rathbone escreve que “as duas maiores economias da América Latina estão mergulhadas em enormes escândalos que envolveram seus presidentes e também esbarraram nos interesses de investidores. Até agora, Dilma Rousseff teve mais desenvoltura em manejar a repercussão da crise no Brasil do que Enrique Peña Nieto fez no México – apesar de que isso pode facilmente mudar”.

Rathbone continua: “No Brasil, a controvérsia envolve um suposto esquema de propinas na Petrobras, a empresa estatal de energia, quando Dilma ao menos teoricamente supervisionou quando era ministra de Minas e Energia e que também está cotada na Bolsa de Valores de Nova York. O escândalo de corrupção, ligado ao financiamento de partidos, muito parecido com o escândalo do mensalão no segundo mandato de Luis Inácio Lula da Silva, está sendo investigado pela polícia federal e também pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o SEC. O escândalo não é só politicamente importante: o Brasil espera promover uma licitação de exploração de petróleo por volta do início do ano que vem.

Enquanto isso, no México, ocorrem na realidade dois escândalos, aparentemente sem relação um com o outro mas os dois também são ligados à impunidade e ao frágil poder da lei. Um é o “desaparecimento” de 43 estudantes no estado de Guerrero nas mãos da polícia local no mês passado. O outro foca nas alegações de capitalismo crony em um contrato de infra-estrutura vencido por um consórcio liderado por chineses envolvendo uma empresa que é dona da casa da primeira-dama. O México também planeja lançar uma série de leilões bilionários de petróleo no ano que vem”.

“Até agora, Dilma Rousseff conseguiu administrar melhor a crise no Brasil. Ela reconheceu a seriedade do escândalo da Petrobras e até sugeriu que a investigação “vai mudar para sempre” a sociedade brasileira. “Isso vai acabar com a impunidade,” ela disse a repórteres na Cúpula do G20 na Austrália no último fim de semana. “Esta é, para mim, a característica principal dessa investigação.” Se é verdade ou não, são palavras impactantes. 

Peña Nieto, ao contrário, apareceu quase distante, até mesmo na defensiva. Apesar de ter se encontrado com os pais dos estudantes desaparecidos, ele ainda não visitou a cena do crime no estado de Guerrero – um lapso surpreendente. Ele também disse que vai disponibilizar documentos refutando as “afirmações imprecisas e sem base” ligando os contratantes da casa de sua mulher, mas até agora a refutação do governo foi fraca. Isso não ajudou a reforçar a confiança antes da abertura do petróleo no ano que vem”, diz o artigo do Financial Times.

“Além disso, Dilma Rousseff reconheceu abertamente o direito de protestar em público sobre o escândalo da Petrobras. “Apesar de eu não concordar com o teor das manifestações, eu não sou nem a favor, nem contra manifestações em geral. O Brasil tem espaço para protestos, mesmo um que clame pela volta de um golpe. Porque hoje nós somos realmente um país democrático.” Esse é um comunicado confiante.

Peña Nieto, ao contrário, fez um apelo por  mais “civilidade” depois de manifestações mais violentas que aconteceram enquanto ele estava em viagem, participando de reuniões na China e no encontro do G20. More ominously, though, ele acrescentou que o estado tem o direito de impor a ordem, “apesar de esperar que esse não seja o caso.” São palavras medidas, não a retórica acima do tom de um líder que quer dar a impressão de estar no comando de tudo”, prossegue a matéria.

O jornalista faz um questionamento: “Por que existem tais diferenças na abordagem, especialmente quando Rousseff aparece como se fosse de pedra em público, enquanto Peña Nieto costuma ser puro charme? Existem três explicações, talvez”.

Ele enumera as prováveis razões: “Primeiro, os dois escândalos tiraram o crédito de partidos políticos tradicionais e a maneira tradicional de fazer as coisas. Mas Dilma conseguiu de algum jeito se manter distante do Partido dos Trabalhadores, onde reside a raiz causa do escândalo da Petrobras, em grande parte porque ela pode; ela se filiou ao PT em 2000. Peña Nieto, ao contrário foi membro do Partido Revolucionário Institucional desde que entrou na política. Quando chegou ao poder em 2013, ele prometeu reformar o México; o PRI nunca conseguiu isso.

Em segundo lugar, a resposta de Dilma pode parecer mais treinada exatamente porque é assim. Ela é uma presidente guerreira que já sobreviveu a um duro primeiro mandato e a uma eleição disputadíssima. Peña Nieto, ao contrário, apesar de sua fama de inflexível quando era governador de estado, está enfrentando a primeira crise séria de sua presidência. A inexperiência de sua administração está aparecendo agora.

Em terceiro lugar, Dilma pode ter contra-atacado com mais firmeza porque ela deve ser assim. A economia brasileira está avançando penosamente, na melhor das hipóteses, e as políticas econômicas do governo parecem ter perdido a direção estratégica. Peña Nieto, por outro lado, tem um discurso ao qual recorrer: aquele de um reformista radical que implantou medidas, como a liberalização da energia, que o México precisava há muito tempo. O único problema com isso, claro, é que na situação atual o discurso do reformista corajoso não é mais suficiente por si só”.

“E por último, será que algum desses presidentes vai realmente realizar mudanças significativas? O Brasil lançou questionamentos parecidos antes e nada demais aconteceu. Políticos condenados no julgamento do mensalão do ano passado já foram liberados para cumprir prisão domiciliar. E agora temos o que muitos estão chamando de mensalão II. A realidade costuma ser dolorosamente teimosa, especialmente em países gigantes como o Brasil, seja quais forem as promessas feitas para mudá-la.

De forma parecida, o México já viu ondas similares de insatisfação popular sobre corrupção e insegurança, e  mais recentemente com o ex-presidente Felipe Calderon. Mas esses protestos também não levaram a uma mudança significativa. Muitos acreditam que Peña Nieto tem a habilidade e o bom-senso político de implementar mudanças agora. (sugestões sobre o que ele poderia fazer vão de acelerar reformas judiciais para prender alguns dos mais desonestos governadores de estados – for em nome da imparcialidade, um de cada um dos três estados tradicionais). Mas isso implicaria, ao menos em parte, ir contra pessoas e práticas que podem ter contribuído para que ele chegasse ao poder. Será que ele fará isso?”, conclui o artigo do Financial Times.