El País’: Os perdedores do tempo moderno

Revolução tecnológica e globalização são involuntárias aliadas dos movimentos populistas no ocidente

“A revolução tecnológica e a globalização são provavelmente as forças mais poderosas entre aquelas que perfilam nosso tempo. Ambas brindam extraordinárias oportunidades à humanidade. Infelizmente, no Ocidente, são dois agentes que ameaçam minar a fundo o habitat social das classes médias e baixas. Logo, são involuntárias aliadas dos populismos”, diz uma matéria do jornal espanhol El País publicada nesta segunda-feira (17/11).

A jornalista Andrea Rizzi prossegue: “A globalização implica no deslocamento de empregos para outros países; e as novas tecnologias, a automatização de funções que antes eram desempenhadas por trabalhadores. Obviamente, ambas as forças produzem riqueza e desenvolvimento. Mas, à diferença da revolução industrial, não está claro que o novo salto tecnológico para adiante compense os empregos destruídos com outros tantos, e mais, novos; nem que essa riqueza seja dividida com equidade.

De fato, essas duas forças parecem tender a ampliar no Ocidente o fosso da renda que existe entre a elite de uma sociedade e seu corpo geral. No âmbito individual, as pessoas com formação ou contatos excelentes extraem uma rentabilildade cada vez maior de seu conhecimento e redes; os demais sofrem a concorrência para baixo procedente de outros lares.No âmbito empresarial, a engenharia fiscal global permite aos mais hábeis evitar sagradas cargas fiscais”.

"Essa síntese omite derivadas positivas dessas forças. Mas esboça o perfil do monstro enfrentado pelas grandes camadas das sociedades europeias. As que agrupam os indivíduos menos formados, especializados, conectados. Os perdedores do nosso tempo.

Assim como na Florença do século XIII a classe aristocrática proprietária de terras perdia inexoravelmente peso diante da incipiente burguesia artesã e comerciante, no Ocidente do século XXI a elite dos melhor formados e posicionados ganha cota de riqueza e poder diante de todos os demais. A coesão social, também devido à redução do Estado de bem-estar social, se desmancha. Um importante segmento social anda à deriva. E este é um formidável caldo de cultivo para projetos populistas na Europa. Esses projetos, é claro, também atraem cidadãos muito formados, fartos das manobras ineficientes ou indecentes da classe política tradicional; porém o território mais explosivo é aquele no qual sobrevive a legião que não consegue um assento digno no trem da modernidade", escreve Rizzi.

"Aproveitam esse mal-estar os populismos com matizes distintas, mas que dividem dialéticas que enfrentam: povo contra casta; nacionalistas contra imigrantes; Estados contra Bruxelas. Essa é a essência do populismo: levantar uns contra os  outros. Mediocridade e corrupção de tantos dirigentes políticos abrem espaço para isso tudo; os desmandos por parte do empresariado jogam mais gasolina. Crise e recortes sociais completam o quadro explosivo.

Algumas sociedades europeias superam melhor do que outras esses desafios. Mas todas enfrentam o descomunal desafio de suavizar a ruptura que a globalização e a revolução tecnológica alimentam; de evitar que a perda da coesão social que foi a marca característica da Europa se transforme em confronto social entre perdedores e ganhadores. Güelfos e Gibelinos do século XXI. Faz falta uma política nobre para evitá-lo", encerra o artigo do El País.