‘El País’: No, we can’t!

Nestes seis anos, Obama demonstrou ser um grande orador e um péssimo presidente

O jornal espanhol ‘El País’ publicou nesta terça-feira (11/11) um artigo fazendo duras críticas ao presidente Barack Obama e decretando o fracasso de seu governo: “Terminou a era Obama. É certo que o presidente americano conta as horas que lhe sobram para seguir dormindo na Casa Branca. E mais, acho que se fosse possível pedir demissão, seguramente ele pensaria na hipótese. São os rasgos das atuais crises mundiais: a perda de liderança, a ausência de referentes e a capacidade de absorção das mensagens e os discursos políticos e sociais”, diz o texto do jornalista Antonio Navalón.

“Os resultados das recentes eleições legislativas de metade de mandato são uma derrota no só de Obama, mas de uma maneira de (não) entender a política. Não compreendeu que em 2008 foi eleito não só por ser o candidato da esperança, mas por ser o homem de quem se esperava que corrigisse os desvios que haviam colocado o mundo à beira do precipício”, prossegue.

Navalón lista os motivos do fracasso: “As duas guerras (Afeganistão e Iraque), derivadas e herdadas do 11 de setembro, colocaram Barack Obama em uma posição muito difícil. Latinos e mulheres lhe deram a vitória em duas vezes. Nestes últimos comícios não é que esses dois grupos tenham mudado de opinião, é que foram eleições curiosas. Por exemplo, nunca houve  100 congressistas mulheres na Câmara de Representantes. Mas apesar dessas peculiaridades, há uma realidade esmagadora: Obama não foi capaz de fazer nem um único acordo político. É um grande orador, mas um péssimo presidente. No dia em que aceitou o prêmio Nobel da Paz, quando em seu trabalho e em seu salário constavam dois conflitos pendentes a serem vencidos, devíamos ter descoberto a inconsistência entre seus discursos e sua atuação política.

Obama só tinha um caminho para chegar ao poder, depois da grave degradação moral pelo acúmulo de crises (militar, política e econômica): enfrentar, assumir e governar, com uma contundência que não se atreveu a aplicar. Os banqueiros, responsáveis pela crise financeira e por outros fatos que acabaram levando o líder democrata ao Salão Oval, acabaram impunes”.

O jornalista aponta outros erros e projeta um futuro próximo: “É evidente que existe uma recuperação econômica que, em parte, se deve a sua política, mas também à falta de firmeza e a confusão do Governo de Washington fizeram com que amplas camadas da população tenham perdido a fé de que votar nele ou nos democratas seja útil.

Para a América Latina também começa um processo, porque quem quiser substituir Obama deverá entender que chegou o momento de abrir, sobre outra base, o diálogo com as Américas. Não haverá uma política interna norte-americana sem uma redefinição da política exterior. Exemplo: qual posição os Estados Unidos adotarão no caso mexicano? Que relação terão com o Brasil? Com a América Central, com o Caribe e com todos esses países que, ao longo desses anos, viram como o medo, a insensibilidade ou os problemas domésticos norte-americanos castigaram sem clemência os sem documentos, mas também os com papéis que vivem no império do Norte?

Os esquecidos por Obama são fundamentais para determinar, basicamente, as eleições presidenciais de 2016. O pior que se pode dizer de Obama com relação à América Latina é que não foi melhor do que o Partido Republicano que, com George W. Bush, deixou o subcontinente à sua sorte. Como seu antecessor, nesses anos o presidente democrata tentou cuidar do mundo, deixando a América Latina no esquecimento, algo que já não será possível para seu substituto. Assim como Obama sentou-se duas vezes no Salão Oval graças ao voto latino, para poder formar um trato, ou pacto ou um novo acordo, o próximo inquilino da Casa Branca deverá ter uma política de emigração que passe pela solução do acúmulo de tantas tragédias humanas”.

Navalón continua: “Não é verdade que os populistas do Tea Party foram os mais terríveis opositores de todos os tempos. Na história recente, houve mandatários como Roosevelt, que também teve uma oposição republicana feroz e não apenas conseguiu ganhar várias eleições, mas também foi capaz de governar. Também é preciso lembrar os anos noventa, quando Newt Gingrich, presidente da Câmara de Deputados durante quatro anos, transformou-se no açoite de Bill Clinton pelo escândalo desencadeado depois do caso Lewinsky. Por isso o Tea Party não é muito pior do que esses exemplos anteriores.

O que ocorre é que Obama entende as formulações políticas, mas nunca quis aprender o que fazer para cumprir suas promessas. Depois de seis anos no poder, não conseguiu desenvolver a arte do possível, que isso é a política”.

“Com as negociações de paz em curso na Colômbia, com a reestruturação profunda da política do Brasil, com o problema da impunidade que abala o México e com a situação de violência que vive a América Central ou o isolamento de uma parte da América do Sul —com a exceção do Peru—, os Estados Unidos vão precisar articular uma conversa, com orçamentos diferentes e novos, o que todo mundo esperava que tivessem sido a estratégia da relação de Obama com a América Latina. Sem dúvida, isso não passou e a los americanos que falam espanhol ne sequer lhes foi dada a oportunidade de um novo amanhecer como foi proposto aos muçulmanos em seu célebre discurso da Universidade do Cairo.

Agora, é relevante saber quem devemos acompanhar, porém mais importante é saber como, e enquanto isso, ir anotando no livro da História que o primeiro presidente nascido do YouTube, herói da mudança, através das redes sociais, mergulhou seu mandato em um declínio que é, sobretudo, comunicacional. É curioso o silêncio do grande comunicador”, conclui o jornalista do El País.