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'The Dish': Onde foi que Obama errou?

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O jornal The Dish publicou na quarta-feira (5/11) um artigo defendendo o legado de Barack Obama, num momento difícil para os democratas, após a derrota nas eleições legislativas. O texto faz a pergunta “Onde foi que Obama errou?”. Mas questiona as simplificações.  

“Esse é o título para um artigo do Washington Post que tenta trazer uma resposta para a derrota do presidente nas eleições legislativas. E para mim, ele não oferece uma resposta satisfatória. Mostra apenas uma mera cronologia de eventos e quase nunca enumera o que Obama poderia ter feito e não fez, ou quais eram as reais alternativas. Talvez você o veja de outra forma. Mas eu o acho estranhamente vazio de significado”, diz o artigo.

       O autor prossegue: “Para mim, a resposta mais pertinente à pergunta foi o fiasco do site healthcare.gov. Ninguém mias pode ser culpado por isso, e atingiu os índices de popularidade do presidente como um caminhão de dez toneladas. Outubro de 2013 é o momento em que seu índice de reprovação pela primeira vez ultrapassou claramente sua aprovação e assim permaneceu. E o outono de 2013 foi também o momento em que Obama relutou em atacar a Síria – o que provocou um coro de desaprovação dos notáveis de Washington e claro, do partido Republicano.

Esses dois fatos abalaram sua imagem de competente. Os dois deram uma impressão de amadorismo à maioria das pessoas. E quando uma imagem é alterada assim e com clara desaprovação, é difícil reconquistar o ímpeto. Os dois eventos também se seguiram a um traumatizante confronto com o Partido Republicano sobre o limite da dívida e um fracasso de grande repercussão na tentativa de levar adiante uma lei de controle de armas mesmo após o tiroteio na escola de  Sandy Hook, em Newtown, Connecticut”.

       O autor cita o que considera êxitos pouco reconhecidos: “Mas o que essa versão superficial de eventos não capta é o que acontece em seguida. A verdade é: a equipe de Obama conseguiu posteriormente uma quase milagrosa recuperação do Obamacare, alcançou um sucesso real nas inscrições, e viu os custos do sistema de saúde desacelerarem num tal nível que poderiam transferir nossas obrigações fiscais para algo melhor a longo prazo. É quase certo que o Obamacare está aqui para ficar – sobrevivendo a uma batalha campal atrás da outra. Quanto à Síria, Obama fez dessa crise uma oportunidade, ao aproveitar o compromisso assumido pela Rússia que conseguiu localizar, transportar e destruir quase todos os vestígios do estoque de armas químicas de Assad. Isso continua sendo uma grande, e pouquíssima reconhecida conquista – e se você acha que eu estou exagerando, imagine em que situação estaria essa região (e o mundo) se o ISIS tivesse a chance de colocar suas mãos nesse material.

       O mesmo pode ser dito sobre a economia. Nenhum outro país desenvolvido alcançou o crescimento que os EUA conseguiram depois do estímulo – incluindo a Alemanha e sua política de austeridade. Nenhum outro governo administrou uma queda tão abrupta no déficit. Os brutais fatos da economia do século 21 mostraram que isso não foi muito sentido pela enclausurada classe média”. 

O autor do artigo questiona: “Mas quem está oferecendo em cada lado uma real solução para essa matéria-prima da globalização, mercado e tecnologia? Mais uma vez, na essência, Obama tem um registro notável – abalado pela avalanche de hostilidade da direita e descontentamento de todo mundo menos os muito ricos.

Gerenciamento de crise? Bem, o que o partido republicano teria feito em relação à Rússia? Esse país nunca esteve tão isolado internacionalmente e está sendo punido economicamente por sanções e um preço de óleo em declínio. Ebola? Me diga quando teremos um surto neste país. Estado Islâmico? Mais uma vez, eu contesto a ideia de que isso poderia ter sido evitado se os EUA tivessem entrado na guerra civil síria antes – destinando armas aos rebeldes que haviam recentemente se juntado a al Qaeda. E a resposta pragmática de Obama foi uma forma de contenção nas fronteiras com o Estado islâmico – mais uma vez era a opção menos pior que havia”.

O artigo faz críticas à oposição: “Atrás disso tudo houve um fanaticamente obstrucionista e cada vez mais extremista partido republicano.

       Eles julgaram tempos atrás que a real promessa de Obama – sua ambição de transcender a velha política em favor de uma reforma pragmática – poderia ser eliminada se eles simplesmente se recusassem a atuar junto. Que eles tenham negado a um presidente recém-eleito qualquer apoio a um pacote de estímulo em meio a uma economia em espiral foi eloquente o bastante – mas sabemos agora, claro, que essa foi a estratégia planejada confidencialmente antes mesmo de Obama assumir”.

       Além disso, cita as insatisfações também do lado dos eleitores de Obama: “Em seguida há a desilusão de alguns na esquerda que consideram qualquer uso de vigilância contra o terrorismo jihadista como escandaloso (até quando eles também se opõem a todos os outros meios de lutar contra a ameaça), que vêem o Obamacare como uma venda ao lobby das empresas de seguro, que queriam muito mais populismo contra Wall Street, e que detestam a guerra de drones e a nova campanha contra o Estado Islâmico. Eles têm o direito de se opor em todos esses terrenos, e eu simpatizo com alguns. Mas eles também com frequência não entenderam a realidade de proteger a segurança americana na era da jihad global, e ninguém dá crédito ao governo Obama pela notável ausência de maiores ataques terroristas à sua vista. Eles também tendem a não captar mudanças substanciais que Obama fez em outras áreas – os mais rígidos padrões de emissões jamais impostos pelo governo federal, por exemplo, ou a surpreendente aceitação do casamento igualitário ou membros de serviço abertamente gays – e subestimaram a dificuldade de governar com um eleitorado tão profundamente polarizado.

       O autor conclui: “E assim, enquanto eu consigo facilmente achar falhas em várias áreas, não consigo enxergar qualquer razão substancial para Obama ter perdido altivez. E isso – ao invés das incontáveis contas de como sua popularidade caiu – é o que deveria importar. E eu digo isso especialmente a aqueles que o apoiaram com tanto fervor em 2008 e coragem em 2012. Se você tem discordâncias reais e substanciais com suas políticas, tudo bem. Mas se valeu a pena lutar por essa presidência seis anos atrás, vale a pena lutar de novo hoje. Ele nunca nos prometeu a perfeição – apenas resistência e persistência em mudar substancialmente a nação e o mundo para melhor. Ele demonstrou facilmente essa persistência contra uma verdadeira demonização. O cinismo fácil não é, a meu ver, o que ele merece. O que ele precisa é de nosso apoio – enquanto ainda temos a sorte de tê-lo na Casa Branca. E esse apoio não deve terminar com esta vitória do Partido Republicano e os Clintons se segurando nas asas. Deveria começar de novo com seriedade – e fazer com que seus êxitos substanciais durem o máximo que puderem”.