Papa pede 'reforma ética' e propõe a descentralização da Igreja

Francisco divulgou projeto que pode ser a maior reforma no Vaticano nos últimos 50 anos

O papa Francisco divulgou nesta terça-feira (26) um projeto que pode ser a maior reforma a ser feita no Vaticano nos últimos 50 anos. O documento, uma exortação apostólica sobre evangelização, com 200 páginas e intitulada "Evangelii Gaudium", foi apresentado por ocasião da conclusão do Ano da Fé.

Na carta, Francisco aborda a situação econômica mundial e pede "uma reforma financeira que não ignore a ética" e uma "vigorosa mudança de comportamento por parte dos dirigentes políticos". "O dinheiro deve servir, e não governar", criticou o Pontífice.

Sobre a questão religiosa, ele também propõe uma "descentralização da Igreja" e convida a todos "a uma nova etapa de evangelização", marcada pela abertura da Igreja Católica aos fiéis e pela aceitação de diferentes práticas do catolicismo.

"O cristianismo não dispõe de um único modelo cultural e o rosto da Igreja é multiforme", escreveu. "Não podemos esperar que todos os povos, para expressar a fé cristã, tenham de imitar as modalidades adotadas pelos povos europeus num determinado momento da história", defendeu.

Em um trecho do documento, o Papa também lançou críticas aos padres e sacerdotes que se "sentem superiores" e não praticam a caridade, afirmando que eles devem evitar as "tentações" do individualismo. Ele sinalou ainda para possíveis lutas da própria Igreja Católica. "Dentro do povo de Deus, quantas guerras", lamentou o Papa. "A quem queremos evangelizar com estes comportamentos?", questionou.

O próprio Francisco deu sinais de que estaria disposto a integrar a reforma, mudando tradições do papado. Segundo ele, sua principal meta é uma "conversão do papado para que seja mais fiel ao significado que Jesus Cristo lhe quis dar e às necessidades atuais da evangelização".  "Nesta renovação, não se deve ter medo de rever costumes da Igreja que não são diretamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns dos mais profundamente enraizados ao longo da história", ressaltou.

Francisco, porém, defendeu a posição da Igreja Católica em relação ao aborto, dizendo que a proteção dos fetos está "intimamente ligada à defesa de qualquer direito humano", e não faz parte de "nada ideológico, obscurantista e conservador". A exortação apostólica de Francisco é forte, potente e pragmática, com tons de espiritualidade e humanidade. Segundo especialistas, o documento deve ser visto como um tipo de manifesto do Pontificado de Jorge Mario Bergoglio.