Após reeleição, Correa mira imprensa do Equador e divide opiniões

Presidente reeleito segue Chávez,  Kirchner e Castro

No dia em que sagrou-se o grande vencedor de sua terceira eleição, no último domingo (17), o economista equatoriano Rafael Correa não perdeu tempo. Em entrevista, disse que sua prioridade neste terceiro mandato será criar uma legislação para a imprensa do país.

“Busquemos uma nova Lei de Comunicação que regule os claros excessos que tem certa imprensa.”, disse ele sobre a mídia do Equador. A postura, que  remonta a mesma de Hugo Chávez, na Venezuela, e a de Cristina Kirchner, na Argentina, divide opiniões. Há quem fale em "campanha para enfraquecer as redes privadas de comunicação na América Latina".

Para o professor Marcelo Coutinho, do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NEPP-DH/ UFRJ), é clara a campanha de enfraquecimento das redes privadas de comunicação por parte dos presidentes da América Latina e pode haver um prejuízo para a liberdade de imprensa e de informação

"Essa grande campanha de enfraquecimento das redes privadas na América Latina já foi vista com Chávez, na Venezuela, e com Cristina Kirchner, na Argentina. Agora é a vez de Correa, no Equador. No caso de Corrêa, ele tem maioria no Congresso. Por isso, vai aprofundar a agenda de uma nova legislação para a imprensa. Isso é fato", diz Coutinho. 

"Tudo isso porque a imprensa cumpre o papel de tecer duras críticas ao governo. Como no Brasil, Venezuela e Equador a antiga oposição está no poder. Assim, quem assume o papel de se opor aos governantes é a própria imprensa. O Congresso não funciona como um contrapeso institucional, porque em alguns países da América Latina, o governo tem maioria no Congresso. No Brasil há também movimentos neste sentido. Mas, como a sociedade é mais complexa, e o governo é de coalizão (não tem maioria dentro do Congresso Nacional e precisa de alianças), o projeto não avança", destaca o estudioso.

Já para o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Mário Augusto Jacobskind, o que se vê na América Latina é uma tentativa de tornar o espaço midiático dominado cada vez menos por empresas privadas.

"Com a reforma da legislação na Venezuela e na Argentina, o que se alcançou foi a divisão do espaço de mídia antes dominado apenas por empresas privadas", diz. "Hoje, depois das mudanças chavistas, a Venezuela caiu de 98 para 80% da mídia dominada por empresas privadas. Isso já pode ser considerado um avanço. No Brasil, o avanço da democracia depende também do avanço da legislação dos meios de comunicação. Na Venezuela, setores como mídias comunitárias públicas passaram a ter algum espaço, o que antes era nulo", dispara Jacobskind. 

Pesquisador de Relações Institucionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Williams Gonçalves crê que a discussão sobre a democratização do acesso à informação é tirada de foco e, por isso, acaba sendo chamada de cerceamento à liberdade de expressão. 

"A realidade é que os presidentes de esquerda da América Latina querem diminuir o controle que determinados grupos econômicos, ligados aos Estados Unidos, exercem sobre a imprensa e consequentemente sobre os países latinoamericanos", pondera Williams. "É comum hoje aqui no Brasil uma grande empresa de comunicação ter três jornais diferentes, um para cada classe social. Assim, há uma necessidade de mudança. Porque é a mesma opinião, em jornais distintos, para que todos só leiam determinada opinião. Fora do Brasil, nos países vizinhos, a coisa é muito mais acentuada", chama a atenção.

A relação de Correa com a imprensa do Equador foi retratada em dois artigos do 'El País' na última semana. Todos antes da eleição do economista que vai passar a exercer seu terceiro mandato.

Em "El alumno aventajado de Chávez", publicado no último domingo (18), há uma grande retratação do presidente equatoriano como um disciplinado de Hugo Chavez. "o equipamento de propaganda de seu governo só pode ser comparado ao de Chávez na Venezuela", diz a publicação. "Seus críticos dizem que Correa compadece do mesmo afã por controlar os meios de comunicação", continua. A principal diferença entre os dois governos, segundo a publicação assinada pelo jornalista Francisco Peregil, está na diferença de excessos inflacionários - o que acontece na Argentina e na Venezuela, mas não ocorre no Equador, onde o dólar  é moeda oficial. 

Outro artigo do mesmo periódido, intitulado "El Correazo", e publicado na última sexta-feira (16), trata da reforma constitucional e da ampliação dos poderes de Rafael Correa. A reformulação do Estado equatoriano, segundo a publicação, foi produzida a partir de 2005. De maneira abrupta, intolerante, precipitada, como o próprio presidente. Para o jornalista  M. A. Bastenier, o sistema político equatoriano poderia definir-se como um "caudillismo social plebiscitário".