Michelle Obama emociona democratas com discurso político 

Tida como uma das figuras mais populares do governo de Barack Obama, a primeira-dama Michelle fez um discurso altamente emotivo para fechar a primeira noite da Convenção Nacional do Partido Democrata em Charlotte, Carolina do Norte. Mas nas entrelinhas dos depoimentos de amor e superação, contadas com naturalidade e emoção que levaram democratas às lágrimas, leram-se também claras teses políticas opostas ao discurso dos republicanos, na semana passada.

Tal como Ann Romney, sua concorrente republicana, Michelle Obama iniciou o discurso contando histórias sobre o início da vida pessoal e da vida ao lado de Obama. Como Ann, deu grande atenção à superação e às vitórias obtidas ao longo do caminho. Mas, numa tentativa de, aos poucos, mostrar as diferenças em jogo, passou a enfatizar as dificuldades encontradas na infância não abastada.

"Vocês veem, Barack e eu ambos crescemos em famílias que não tinham muito dinheiro ou posses materiais, mas que nos deram algo muito mais valioso - seu amor incondicional, seu destemido sacrifício, e a chance de ir a lugares que eles nunca haviam imaginado para si próprios", afirmou, para, mais tarde, definir o sonho americano: "Mesmo que você não comece com muito dinheiro, se você trabalhar, você conseguirá formar uma grande família".

Trata-se de um discurso similar a o que animou os republicanos na semana passada em Tampa, na Flórida. Mas enquanto Romney e seus colegas republicanos tanto falaram do mito americano da superação pessoal em termos de liberdade, Michelle e os democratas promoveram uma leve, ainda que fundamental, mudança de eixo em direção à oportunidade.

"Vejo Obama chorando sobre cartas de pessoas sofrendo para pagar tratamentos e as contas", contou Michelle. "'Temos tanto ainda a fazer por essas pessoas'", contou, sobre as noites do marido, debruçado sobre sua mesa de trabalho. "Para Barack, sucesso não é quanto dinheiro você ganha, mas a diferença que você faz na vida das pessoas".

O foco, portanto, ainda é a chance única de o indivíduo americano fazer a sua vida do seu modo. Mas, para Michelle e para os democratas, isso só é socialmente (e não meramente individualmente) possível com a presença do Estado, que torna esta caminhada possível aos menos privilegiados. Não é exatamente o ideal de Paul Ryan, o vice-republicano, que quer uma Washington cada vez menos cara, menos atuante e menos intrusa.

A lógica conclamada na primeira noite em Charlotte é coletivista (ou, se a crítica o quiser, paternalista). "(Obama) acredita que, quando você obtém sucesso, você volta e ajuda os outros", disse a primeira-dama.

E ainda que calando tecnicamente sobre o problema do desemprego e da recuperação econômica, Michelle Obama enviou uma mensagem realista aos eleitores e os republicanos. "O jogo que estamos jogando é longo... A mudança é difícil, e a mudança é lenta, e nunca acontece tudo de uma vez por todas", afirmou, em referência indireta às reivindicações intensas por mais empregos, mote central da campanha de Romney. "Não há atalhos", advertiu.

"Ser presidente não muda quem você é; ser presidente revela quem você é", evocou a primeira-dama em uma das frases mais marcantes da noite, antes de, perto do fim do discurso, declarar-se: "Amo meu marido mais hoje do que há quatro anos".

Até novembro, saberemos se eleitorado americano gostou de quem Obama revelou-se ser e se, sobretudo, está mais apaixonado por ele hoje do que em 2008, quando o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos foi eleito com a missão de mudar o país.