Faltou experiência política a Lugo, diz senador paraguaio 

Fernando Lugo, um bispo emérito da igreja católica, teve sua primeira experiência política na presidência do Paraguai, após uma ampla aliança política que acabou com hegemonia de mais de 60 anos do Partido Colorado. No entanto, a falta de experiência no jogo político, a despreocupação com a base, desdobramentos pré-eleitorais e pressões setoriais, fizeram com que o Congresso o destituísse do cargo na sexta-feira passada, com voto contrário de apenas quatro senadores.

A avaliação foi feita pelo senador Luis Alberto Wagner Lezcano, filiado ao Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), um dos quatro que votaram contra a destituição do ex-presidente.

"Ele estava muito fechado e não soube levar os problemas que teve para ganhar mais tempo. Faltou falta experiência política, porque deixou de lado o partido que lhe dava os 14 votos necessários para impedir o juízo político", diz Lezcano. "Deveria ter ficado de olho nisso, mas nunca acreditou que pudesse chegar a essa situação", avalia o senador do partido que já foi da base de Lugo, mas que agora já declarou apoio ao novo presidente, Frederico Franco.

Lezcano considera que os violentos conflitos no campo foram a oportunidade que seus adversários esperavam para conseguir tirá-lo do poder. "Foi um pretexto. O motivo principal são setores que não estavam de acordo com o movimento que fazia ao lado dos camponeses. Dava muito espaço", afirma o senador. "Há muitos interesses. Parece que tem uma empresa que quer energia subsidiada de Itaipu, além da questão dos transgênicos".

No entanto, ele acredita que o principal motivo de sua queda foram as articulações entre o Partido Colorado, encabeçadas pelo empresário Horacio Cartez (pré-cadidato colorado), que buscava apoio para as eleições de 2013. "O problema do presidente Lugo é que não construiu uma aliança parlamentar eficiente. Fez uns acordos, mas no momento final, não responderam (...) Ele foi perdendo apoio, como normalmente acontece, mas estava sólido até muito pouco tempo atrás. Foi muito rápido o afastamento do Partido Liberal", disse.

O senador foi contra a destituição de Lugo porque acredita que seu partido perdeu um espaço precioso na corrida eleitoral do ano que vem. "Eu via a questão do meu partido, que estava destroçado, sem possibilidade de disputar as eleições de 2013. Me interessava mais 2013 do que ter seis meses de governo e depois ser destroçado em 2013", afirmou.

Processo relâmpago destitui Lugo da presidência

No dia 15 de junho, um confronto entre policiais e sem-terra em uma área rural de Cuaraguaty, ligada a opositores, terminou com 17 mortes. O episódio desencadeou uma crise no Paraguai, na qual o presidente Fernando Lugo, acusado pelo ocorrido, foi sendo isolado no xadrez político. Seis dias depois, a Câmara dos Deputados aprovou de modo quase unânime (73 votos a 1) o pedido de impeachment do presidente. No dia 22, pouco mais de 24 horas depois, o Senado julgou o processo e, por 39 votos a 4, destituiu o presidente.

A rapidez do processo, a falta de concretude das acusações e a quase inexistente chance de defesa do acusado provocaram uma onda de críticas entre as lideranças latino-americanas. Lugo, por sua vez, não esboçou resistência e se despediu do poder com um discurso emotivo. Em poucos instantes, Federico Franco, seu vice, foi ovacionado e empossado. Ele discursou a um Congresso lotado, pedindo união ao povo paraguaio - enquanto nas ruas manifestantes entravam em confronto com a polícia -, e compreensão aos vizinhos latinos, que questionam a legitimidade do ocorrido em Assunção.