Ministro defende rejeição ao novo governo paraguaio

Um dos principais interlocutores políticos do Palácio do Planalto, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, avaliou nesta segunda-feira que o impeachment-relâmpago que aconteceu no Paraguai vai na contramão do histórico recente da democracia na América Latina. Ele defendeu que foros multilaterais da região, como o Mercosul e a União das Nações Sul-Americanas (Unasul), ajam para não aceitar a implantação do novo governo.

"O que se esperava era um caminho na outra perspectiva. De aprofundamento da democracia e não de restrição a um direito democrático de defesa como foi o caso que se praticou no Paraguai", disse o ministro, que preferiu não entrar na polêmica de classificar o impeachment como golpe. "É por isso a nossa estranheza e perplexidade e acho correto que a Unasul e o Mercosul, que têm nas suas cartas de princípio a defesa à democracia, façam uma ação forte de não aceitar essa (situação)", acrescentou.

O ministro defendeu os foros multilaterais para tratar o assunto, sinalizando que o Brasil não deverá adotar medidas unilaterais contra o vizinho. "Para nós é muito importante valorizar o Mercosul e a Unasul e trabalhar em conjunto com os países. Nós estamos evitando tomar qualquer medida que não seja construída num consenso com esses outros países", disse.

Gilberto preferiu não entrar na polêmica de classificar o processo de troca de governo no Paraguai como golpe. "O governo brasileiro manifestou protesto contra o processo. A história do adjetivo, a gente tem de tomar muito cuidado nessa hora até por respeito também ao outro governo e ao povo paraguaio", ponderou o ministro. "Você mudar o presidente de um país num período de 24, 30 horas é de todo inusitado. Então, há uma insurgência de todos os países contra essa questão, mas acho que agora a presidenta, os outros países em conjunto, vamos com maturidade tomar uma posição", pontuou em outro momento.

O Brasil defende a suspensão do Paraguai no âmbito do Mercosul e deverá levar essa posição para a próxima reunião de chefes de Estado do bloco, marcada para esta sexta-feira. Gilberto Carvalho não quis comentar o fato de não ser dado ao governo Federico Franco a oportunidade de dar explicações ao grupo nem sobre a possibilidade de o presidente impedido, Fernando Lugo, participar do encontro.

Processo relâmpago destitui Lugo da presidência

No dia 15 de junho, um confronto entre policiais e sem-terra em uma área rural de Curaguaty, ligada a opositores, terminou com 17 mortes. O episódio desencadeou uma crise no Paraguai, na qual o presidente Fernando Lugo, acusado pelo ocorrido, foi sendo isolado no xadrez político. Seis dias depois, a Câmara dos Deputados aprovou de modo quase unânime (73 votos a 1) o pedido de impeachment do presidente. No dia 22, pouco mais de 24 horas depois, o Senado julgou o processo e, por 39 votos a 4, destituiu o presidente.

A rapidez do processo, a falta de concretude das acusações e a quase inexistente chance de defesa do acusado provocaram uma onda de críticas entre as lideranças latino-americanas. Lugo, por sua vez, não esboçou resistência e se despediu do poder com um discurso emotivo. Em poucos instantes, Federico Franco, seu vice, foi ovacionado e empossado. Ele discursou a um Congresso lotado, pedindo união ao povo paraguaio - enquanto nas ruas manifestantes entravam em confronto com a polícia -, e compreensão aos vizinhos latinos, que questionam a legitimidade do ocorrido em Assunção.