Conflito pelas Malvinas existe há mais de 200 anos, diz pesquisador

As ruas de Buenos Aires já estão adornadas por cartazes que reivindicam a devolução à Argentina das Ilhas Malvinas (Falklands, em inglês) por parte da Grã-Bretanha. A razão é a aproximação da data do trigésimo aniversário de início da guerra entre as duas nações pelo domínio arquipélago, que se comemora no próximo dia dois de abril. Porém, a origem das brigas por este pedaço de terra localizado ao sul do Oceano Atlântico é muito anterior ao conflito armado de 1982 e envolve mais países.

Segundo o mestrando da USP Fernando Sarti Ferreira, que estuda história econômica argentina, o primeiro mapa que registra a existência das Malvinas foi feito em 1529 pelos portugueses. A partir daí, conta ele, a região passou a ser frequentada também por holandeses, franceses e britânicos. A primeira tentativa de colonização da região ocorreu em 1764 pela França, que fundou a colônia de Port Louis com o intuito de abastecer navios franceses que rumavam ao Oceano Pacífico. No ano seguinte, os britânicos tiveram a mesma ideia e fundaram Port Egmont, passando a disputar o arquipélago com os franceses. Porém, com base no tratado de Tordesilhas as terras pertenciam à Espanha, que por volta de 1765 começou a reivindicar a posse da região.

Ferreira explica que o navegante francês Luis Antoine de Boungainville, que havia ocupado a região, entregou Port Louis à Espanha em troca de determinado valor correspondente a equipamentos e embarcações transferidos aos espanhóis. "Isto de fato é um antecedente que a diplomacia argentina cita, porque significa que a coroa francesa reconheceu a soberania espanhola", diz Federico Lorenz, historiador argentino e autor dos livros Las Guerras por Malvinas e Fantasmas de las Malvinas.

Com os britânicos o acerto foi mais complicado. Como eles não se demonstraram preocupados com a presença de espanhóis na região anteriormente francesa, a coroa espanhola enviou sua armada ao local e rendeu os britânicos. Segundo Ferreira, o fato gerou alvoroço e resultou na assinatura de um acordo secreto que estipulava a retirada total dos britânicos da região até o ano de 1774. Porém, relata o mestrando, somente em 1790 os ingleses passam a reconhecer efetiva e abertamente a posse do território pelos espanhóis. Além disso, somente "o fato de abandonar o assentamento que haviam fundado às escondidas é visto como um reconhecimento de soberania", acrescenta Lorenz.

Os espanhóis designaram periodicamente governadores militares nas Malvinas. Foram 34 no total. Quando ocorreu a Revolução de Maio, em 1810, as ilhas passaram a pertencer às Províncias Unidas do Rio da Prata, pois nesta época ainda não havia Estado argentino. A partir de então, segundo Lorenz, houve dois anos vagos, sem nenhuma autoridade e, em seguida, o governo da província de Buenos Aires, que estava encarregado das relações exteriores, designou suas próprias autoridades. "O fato que produziu a disputa pela soberania foi a expulsão (por parte dos britânicos) das autoridades designadas pelo governo da província de Buenos Aires nas Malvinas em janeiro de 1833", diz Lorenz. Desde então o arquipélago está ocupado pela Grã-Bretanha.

Reivindicações argentinas pela recuperação do território

Antes da Guerra das Malvinas, ocorrida em 1982, a Argentina nunca havia tentado recuperar as ilhas através da força. Todas as lutas anteriores foram diplomáticas.

Inicialmente, foram feitas reclamações diretamente à coroa britânica e, depois que foram criadas as Nações Unidas, o governo argentino passou a acionar sistematicamente esta instituição. Ferreira destaca que, historicamente, "independentemente do grupo que estivesse no poder, as gestações diretas ou através das Nações Unidas para a resolução da questão do Atlântico Sul nunca foram abandonadas por nenhum governo argentino". Segundo destaca Lorenz, "assim é que se produziram as resoluções da Assembleia Geral e do Comitê de Descolonização de que a situação das Malvinas é de colonialismo". Esse é o estado atual da questão nas Nações Unidas.

A Guerra das Malvinas

O conflito ocorrido em 1982 foi resultado da soma de diversos fatores. O início do processo se deu a partir de um acordo feito entre Leopoldo Fortunato Galtieri, que pertencia ao Exército e foi presidente da junta militar em 1981 e 1982, com o chefe da Marinha, Jorge Isaac Anaya. Galtieri pediu a Anaya que o apoiasse para retirar do poder Roberto Eduardo Viola, que ocupava a presidência em 1981, em troca de apoio para a recuperação das Malvinas.

Lorenz explica que, inicialmente, a guerra não foi pensada como uma revolução definitiva. O objetivo era instalar uma situação de força que obrigasse a Grã-Bretanha a negociar. "As forças armadas argentinas nunca esperavam uma guerra. Pode parecer louco, mas não se preparavam para uma guerra. Não esperavam que a Grã-Bretanha fosse responder", destaca o historiador.

Porém, a situação interna argentina, que registrava uma inquietação cada vez maior com o regime militar, e a pressão britânica, levaram a antecipação da medida de força que, num primeiro momento, estava prevista para o dia 25 de maio ¿ data de início da Revolução de Maio, considerada o começo do processo de independência do país.

Lorenz acredita que a guerra não serviu para nada mais do que provocar várias centenas e mortos e feridos. No total, faleceram 649 argentinos, 255 britânicos e 3 civis islenhos. "Supondo que uma guerra serve para algo, esta não seviu para o objetivo a que se propôs que era a recuperação do território", diz o historiador. Além disso, "produziu um tremendo retrocesso nas relações diplomáticas que vão levar décadas para ser recompostas".

Se o conflito teve algum saldo positivo, Lorenz acredita que foi a queda do regime militar. Ele conta que, naquela época, as forças armadas eram questionadas pelas violações aos direitos humanos por parte da população, mas que isso não era uma reclamação massiva da sociedade. Nem todos resistiram à ditadura. "As forças armadas foram questionadas porque haviam fracassado em sua função específica, que é a defesa", analisa o historiador. De acordo com ele, isso, somado a sensação de defraudação, de derrota e de cansaço, fez do plano que os militares viam como um caminho para se perpetuarem no poder os obrigasse a entregá-lo antes do que desejavam.

Efeitos da guerra na disputa atual pelas Mavinas

O problema atual com relação ao tema da disputa pelas Malvinas é que a questão nacionalista, que é anterior à guerra, segue sendo muito forte. Lorenz aponta que é mais interessante pensar a luta pela soberania argentina sobre as ilhas no panorama atual do que apelar à antiga reclamação.

Há uma série de interesses reais que justificam a preocupação pelas Malvinas. Segundo o historiador, o tema deveria ser tratado como uma problemática regional. "A soberania de uma potência como Grã-Bretanha, associada aos Estados Unidos, no Conesul, é algo que preocupa em termos de recursos, por exemplo, o que, estritamente falando, deveria preocupar mais aos brasileiros que aos argentinos devido às fontes de petróleo encontradas recentemente na região".

Há interesses relacionados também às comunicações - por se tratar de uma passagem via oceânica - e à projeção à Antártida. Mas o que parece realmente preocupá-lo é a relação com a lógica de se criar uma nova guerra de tempos em tempos para seguir predominando no mundo. "O arquipélago das Malvinas é um ponto de acesso direto a todo Conesul, mas principalmente a dois países muito importantes dentro da região, que são Argentina e Brasil", conclui Lorenz.