Idleb sob controle do regime sírio, que é alvo de criticas da Rússia 

O regime de Bashar al-Assad retomou nesta quarta-feira o controle total do importante reduto rebelde de Idleb ao final de um cerco de quatro dias, enquanto sua aliada Rússia criticou o presidente sírio pelo "enorme atraso" na aplicação das reformas e alertava contra o risco de uma escalada da crise.

Um ano depois do início da revolta reprimida violentamente, o regime tira aproveito do pouco armamento rebelde, da fragmentação da oposição e, sobretudo, da divisão da comunidade internacional para reafirmar sua autoridade sobre importantes redutos rebeldes.

"Desde ontem (terça-feira) à noite, não há mais combates em Idleb. O Exército Livre Sírio (ASL) se retirou e o exército regular tomou toda a cidade, realizando perseguições de casa em casa", afirmou Nureddine al-Abdo, um militante local, informando que o exército continuava realizando prisões nesta quarta-feira.

Os combates, no entanto, continuam no distrito de Jabal al-Zauia, em Idleb, deixando quatro mortos (dois civis e dois rebeldes), segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

Diante da reticência da comunidade internacional de armar os rebeldes, os militantes reafirmaram a falta de equipamentos para explicar a nova derrota. "O ASL preferiu se retirar. Todo mundo sabe que ele não é capaz de enfrentar em igualdade o exército", afirmou Abdo.

A Rússia, que até este momento apoiava Damasco sem restrições, criticou o regime.

"Infelizmente, todos os nossos conselhos não foram seguidos nem colocados em prática no tempo desejado", lamentou o chefe da diplomacia russa Sergueï Lavrov ao Parlamento.

O regime de Bashar al-Assad "introduziu boas reformas que renovam o sistema e cria uma abertura para o pluralismo, mas isso aconteceu com muito atraso", criticou Lavrov.

A proposta de estabelecer um diálogo entre a comunidade internacional e a Síria também acontece com atraso, acrescentou o ministro russo, observando que esta inércia pode acabar por "engolir o mundo inteiro".

Na véspera, Bashar al-Assad anunciou a realização de eleições legislativas em maio, as primeiras desde o início da revolta que já fez mais de 8.500 mortos, segundo o OSDH.

A comunidade internacional espera por propostas concretas do regime, cobradas no último fim de semana pelo emissário da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan.

Os países ocidentais pediram à Rússia que utilizasse de sua influência para persuadir Bashar al-Assad para acabar com a repressão.

Lavrov insistiu no fato de que seu país estava fazendo tudo para resolver o conflito.

"A parte do conflito onde temos influência é no governo de Bashar al-Assad", reconheceu Lavrov, observando que Moscou não defende "o regime sírio, e sim a justiça" no país. Lavrov negou ainda que as armas fornecidas por seu país à Rússia sejam usadas contra civis.

"Cabe ao povo decidir quem deve estar no poder na Síria", ressaltou, reafirmando a oposição de Moscou a qualquer ingerência e "resolução grosseira" da ONU.

A Rússia bloqueou duas resoluções da ONU que condenavam a repressão do regime de Assad e rejeitou na semana passada um novo projeto americano no Conselho de Segurança.

Por sua vez, o Conselho Nacional Sírio (CNS), que reúne os principais movimentos da oposição, informou a desistência de três personalidades.

Haitham al-Maleh, Kamal al-Labwani e Catherine al-Talli anunciaram em suas páginas do Facebook que se retiravam do grupo devido às "divergências e ineficácia" do CNS.

A Anistia Internacional denunciou mais uma vez a "tortura sistemática" dos presos. "A amplitude da tortura e maus-tratos na Síria já atingem um nível comparável aos dos anos sombrios de 1970 e 1980", afirmou a ONG.

A França enviou aos países que fazem fronteira com a Síria o seu embaixador para os direitos Humanos a fim de reunir provas das atrocidades cometidas pelo regime para um relatório que será enviado ao Tribunal Penal Internacional (TPI), segundo diplomatas.

Por fim, dois jornalistas turcos foram dados como desaparecidos na Síria, segundo o jornal Milat, com o qual os repórteres se comunicaram pela última vez em Idleb em 9 de março.

Em um comunicado, o Milat informa que não recebe notícias do repórter Adem Özköse e do cinegrafista Hamit Coskun há cinco dias.

No dia 9 de março, os dois ligaram para o jornal e informaram que estavam na cidade de Idleb. "Esperamos uma declaração urgente das autoridades sírias", completa o texto.