Ahmadinejad se defende no Parlamento do Irã 

O presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, fez uma desafiadora e, por vezes, zombeteira defesa de sua gestão política e econômica nesta quarta-feira em um interrogatório sem precedentes realizado por um Parlamento amplamente hostil.

"Até agora nenhuma grande violação foi provada contra meu governo... Se vocês nos classificarem com menos de 100%, isso será injusto e uma covardia", disse Ahmadinejad a legisladores no fim de uma resposta de quase uma hora, que foi transmitida pela rádio estatal.

Foi a primeira vez que um presidente iraniano foi convocado perante o Parlamento para responder a perguntas sobre sua gestão desde a criação da República Islâmica, em 1979.

Ahmadinejad rejeitou as tentativas de constrangê-lo com perguntas relativas à economia do Irã, a sua lealdade ao líder supremo Aiatolá Ali Khamenei e a seus argumentos para afrouxar as regras islâmicas sobre vestuário para mulheres ou relações de gênero.

Mas o fato de o interrogatório ter sido realizado ressalta, na realidade, a influência em declínio de Ahmadinejad, diante da aproximação do fim de seu segundo e último mandato, que expira no próximo ano.

Khamenei no último ano freou as ambições de Ahmadinejad de expandir poder e influência, vetando-o quando ele tentou tirar seu ministro da Inteligência em 2011 e mantendo-o na rédea curta em decisões políticas.

O Parlamento de 290 membros, que já tem a maioria favorável a cercear a autoridade do presidente, deverá ter ainda uma menor minoria pró-Ahmadinejad quando for reconstituído, no fim de maio, após as eleições realizadas no início deste mês.

Um total de 79 parlamentares assinaram uma petição em fevereiro exigindo que Ahmadinejad fosse interrogado.

No questionário, Ahmadinejad com frequência assumiu um tom despreocupado.

Quando o Parlamento, pronunciando uma lista de questões, ultrapassou os 15 minutos a que tinha direito, o presidente disse que também estenderia sua resposta para além do tempo permitido.

Ahmadinejad também zombou de uma nova regra exigindo que novos parlamentares eleitos tenham um diploma de mestrado ou equivalente, afirmando que ele pensou que as questões tivessem sido escritas "por aqueles que adquiriram um diploma de mestrado apertando um botão".

As questões "não eram tão difíceis", ele brincou, acrescentando que poderia ter chegado com outras melhores.

O presidente rejeitou que tenha administrado de forma imprópria a economia do Irã, que é atingida por uma inflação de mais de 30%, com uma moeda enfraquecida pelas sanções Ocidentais, e negou problemas nos gastos de grandes projetos de infraestrutura, como o metrô de Teerã.

O crescimento econômico foi forte, disse, e os preços mais altos "não têm relação nenhuma" com sua decisão de 2010 de retirar os subsídios para os alimentos básicos e combustível e substituí-los por um cheque de $35 para os iranianos, afirmou.

Quanto ao enfraquecimento da moeda, "as disputas no mercado de câmbio e ouro têm outras razões, que no devido tempo eu irei explicar às pessoas", esclareceu.

Ahmadinejad minimizou um incidente amplamente divulgado ocorrido no último ano, quando permaneceu em casa por 11 dias depois que Khamenei reinstaurou no cargo o ministro da Inteligência demitido por ele.

"Muitas pessoas me dizem para relaxar e tomar conta de mim mesmo", disse, acrescentando que o andamento das questões do governo prosseguiu sem impedimentos.

Quanto aos códigos estritos impostos à sociedade iraniana, Ahmadinejad disse que devem ser afrouxados.

"As pessoas devem ser respeitadas", disse. "Não coloquem jovens homens e mulheres em uma delegacia de costumes".

Os modos por vezes irreverentes de Ahmadinejad incomodaram muitos parlamentares.

"O presidente não respondeu a nenhuma das questões dos 79 parlamentares, e insultou todos eles", disse um deles, Mostafa Kavakebian, segundo informações da agência Mehr.