Sarkozy vai levar a crise dos ciganos com a UE à cúpula europeia

Deborah Pasmantier , Agência AFP

PARIS - A França considerou nesta quarta-feira inaceitáveis as declarações de uma comissária europeia que comparou a política francesa de expulsão de ciganos com as deportações nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O presidente Nicolas Sarkozy se declarou escandalizado e, falando aos senadores de seu partido sobre a crise desatada entre Paris e Bruxelas, afirmou que explicará sua posição nesta quinta-feira, em Bruxelas, diante de seus colegas europeus.

Além disso, Sarkozy sugeriu que a comissária europeia de Justiça, Viviane Reding, deveria receber os ciganos em Luxemburgo, seu país natal, conforme indicaram os senadores da maioria de direita ao final de um almoço com o chefe de Estado.

"Ele disse que não se fez mais que aplicar os regulamentos europeus, as leis francesas e que não há absolutamente nada para reprovar a França na questão, mas que se os luxemburgueses quiserem recebê-los (os ciganos), não tem problema", indicou um senador da UMP, Bruno Sido.

As afirmações consideradas "mal intencionadas" pelo ministro luxemburguês das Relações Exteriores, Jean Asselborn, que lembrou que Viviane Reding "não falava como luxemburguesa, mas como comissária de Justiça".

Esta crise com a Comissão Europeia começou em agosto, com o endurecimento da política de segurança da França em relação aos ciganos em situação irregular (mil expulsos desde julho, dezenas de campos desmantelados).

Nesta semana, a situação piorou frente às revelações sobre a existência de uma circular - anulada depois - das autoridades francesas para a deportação de ciganos, em contradição às garantias dadas anteriormente a Bruxelas.

Viviane Reding ameaçou na terça-feira levar a França à justiça pelo desrespeito à legislação da UE, fazendo um paralelo com as deportações da Segunda Guerra Mundial.

"Fiquei pessoalmente intrigada com as circunstâncias que dão a impressão de que pessoas são deportadas de um Estado membro (da UE) apenas porque pertencem a uma determinada minoria étnica. Pensava que a Europa não seria mais testemunha desse tipo de situação após a Segunda Guerra Mundial", afirmou a comissária de Justiça.

Afetado por esta última frase, o secretário de Estado francês das Relações Europeias Pierre Lellouche reagiu.

"O tom que ela deu à questão foi 'basta, minha paciência tem limites'. Não é dessa forma que nos dirigimos a um grande Estado", acrescentou, depois de Paris ter sido advertido na semana passada no Parlamento Europeu.

Nesta quarta-feira, o presidente da Comissão, José Manuel Barroso, assegurou que Reding "não quis estabelecer um paralelo entre o que ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial e o período atual" e deu seu apoio a ela.

"A lei comunitária deve ser respeitada, a proibição da discriminação baseada na origem étnica é um dos valores fundamentais da UE e a Comissão Europeia fará o que for necessário para garantir o respeito a esses princípios", ressaltou Barroso.

Viviane Reding pediu a Paris que apresente explicações detalhadas sobre a polêmica circular em uma carta da qual a AFP obteve uma cópia.

Procurando uma trégua com Paris, Barroso tomou "nota" das declarações das autoridades francesas "segundo as quais a França considera que o momento do diálogo chegou".