Ana Ávila, Portal Terra
COLÔMBIA - O presidente venezuelano, Hugo Chávez, estava no seu direito ao romper relações com a Colômbia, na última quinta-feira. Esta é a opinião de Daniel Santiago Chaves, pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da UFRJ, para quem as acusações de Álvaro Uribe, governante da Colômbia, foram graves. "É bastante dura e acusatória a declaração de Uribe, e se é fidedigno o que Chávez diz sobre não abrigar guerrilheiros por vontade própria, é seu direito defender-se", disse Chaves.
O governo da Venezuela rompeu relações diplomáticas com a Colômbia depois que o país vizinho reiterou diante da Organização dos Estados Americanos (OEA) suas acusações sobre a presença de líderes guerrilheiros colombianos em território venezuelano. A crise que culminou com o rompimento iniciou dias antes, em 15 de julho, quando Uribe, a semanas do fim de seu mandato, informou ter evidências, fotos e vídeos, da presença de líderes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) no território venezuelano e as divulgou à imprensa.
No dia seguinte, o governo venezuelano alegou que Uribe tentava destruir as relações bilaterais, em um esforço que "empreendeu com doentia obsessão nos últimos anos". No mesmo dia, Caracas convocou seu embaixador em Bogotá, Gustavo Márquez, como resposta às "agressões" colombianas. Horas depois, a Colômbia pediu a sessão extraordinária da OEA para discutir as suas provas, alegando que já havia feito inúmeros esforços fracassados para a solução do problema por meio do diálogo direto com a Venezuela e com o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza.
Antes de romper com o país vizinho, Chávez garantiu que as acusações de Uribe eram infundadas. "Nós não escondemos ninguém e se algum colombiano irregular entrar ilegalmente na Venezuela, o fará sem consentimento oficial", disse. Além disso, afirmou que a relação entre o atual e o futuro governante da Colômbia não vai nada bem. "Uribe está brigado com Santos, essa é a verdade", declarou, explicando que por isso Uribe estaria "sabotando" seu ex-ministro.
Futuro Colômbia X Venezuela
O pesquisador da UFRJ acredita que a as acusações colombianas representam um aviso à Venezuela de que a troca de governo não significará que a relação entre os dois países vai mudar. "Parece que o presidente Uribe está avisando à Venezuela que, mesmo com a mudança de governo, mantém-se a mesma postura com relação aos problemas políticos e que todo e qualquer movimento de guerrilha será combatido mesmo através de fronteiras", disse Chaves.
Juan Manuel Santos, ex-ministro da Defesa do governo Uribe, que toma posse no próximo dia 7 de agosto, foi o mentor de uma das ações colombianas que mais dificultaram a relação entre os dois países. Na época, uma operação das forças colombianas matou Raul Reyes, nº 2 das Farc, em território equatoriano. Porém agora, prestes a assumir a presidência, Santos preferiu não se pronunciar sobre o novo atrito. Para Chaves, a decisão pode ser uma maneira de tentar evitar o desgaste. "O que se pretende é deixar o ônus e deixar a conta para Uribe, um governante que já está de saída", disse.
Apesar de ressaltar que o sucessor de Uribe não é nenhum santo, Chávez já destacou que ele expressou disposição de normalizar as relações, "congeladas" desde meados do ano passado por uma denúncia colombiana similar. "A Colômbia é uma nação irmã, só que chegou uma burguesia que nos odeia", ressaltou Chávez e sustentou que, inicialmente, pensou em ir a Bogotá para "estender a mão" a Santos e "dar um sinal" rumo à normalização das relações. Porém, após os incidentes recentes, mudou de ideia e não irá à posse do novo presidente.
Em julho do ano passado, A Venezuela "congelou" todas as relações diplomáticas e comerciais com a Colômbia, em protesto contra um acordo militar entre Bogotá e Washington que permite aos Estados Unidos utilizar bases militares colombianas. Chávez criticou o acordo como uma ameaça à sua soberania, alegando que os EUA se preparavam para invadir o país. A decisão foi motivada ainda por declarações de Uribe de que várias armas que a Suécia vendeu à Venezuela apareceram nas mãos das Farc.
Brasil
O Brasil, que já tentou a diplomacia em outras situações semelhantes, não deve mudar de postura desta vez. Para o pesquisador da UFRJ, o País deve insistir em que a discussão se restrinja a fóruns regionais, em vez de partir para uma briga localizada. "Ninguém quer ver uma guerra nas nossas fronteiras. A iniciativa de trazer a contenda para a Unasul, fórum multilateral regional, é a forma mais prática de discutir o conflito entre os atores políticos sul-americanos, onde o debate realmente deve se dar", afirmou.