Val Oliveira , Jornal do Brasil
LONDRES - Nenhum partido lidera pesquisas, o que levaria ao chamado 'hung parliament'
Com a corrida a uma das eleições mais disputadas em solo britânico nas últimas décadas oficialmente aberta, e nenhum dos partidos exibindo uma considerável liderança nas pesquisas, especulações sobre um possível parlamento sem maioria (hung parliament) inundam a capital.
Segundo o blog Election Experts, da London School of Economics (LSE), as chances de uma vitória minoritária conservadora são grandes, o que levaria o líder conservador, David Cameron, a dirigir sozinho o barco do poder em Westminster.
Para construir um governo viável, Cameron teria que liderar uma vitória espetacular nas urnas, o que parece bem improvável no atual âmbito político. Apesar de estar no topo das intenções de voto desde 2008, recentes pesquisas registram uma queda do partido conservador. Duas pesquisas revelam uma liderança conservadora de apenas 5% (35% e 37% contra 30% e 32% do Partido Trabalhista, respectivamente), o que resultaria no hung parliament.
No atual sistema de voto majoritário distrital, o Reino Unido é dividido em 646 distritos eleitorais, sendo 529 na Inglaterra, 18 na Irlanda do Norte, 40 no País de Gales e 59 na Escócia. Cada distrito representa uma bandeira política, e o partido que alcançar o número majoritário de cadeiras (nesse caso, 323) assume o controle da Downing Street.
Efeitos colaterais
Observadores especulam quais os efeitos colaterais que uma vitória minoritária teria no país. Essa será a primeira vez que um governo poderá assumir a liderança do Reino Unido sem uma maioria absoluta desde 1974, o que pode resultar em um governo transitório e desestabilizar a economia.
Um dos grandes obstáculos contra o hung parliament é que um governo minoritário teria dificuldades para passar leis na Casa dos Comuns, criando uma divisão no sistema britânico.
Em entrevista ao JB, Judith Bara, professora de política da Queen Mary University of London, revelou que parlamentos sem maioria são vistos com olhos suspeitos no Reino Unido porque há uma forte cultura de que um governo minoritário traz instabilidade ao país.
Um hung parliament, num país que não é acostumado com isso, me parece levar a um um futuro bem incerto disse a editora de economia da BBC, Stephanie Flanders.
O jornal conservador The Daily Mail acrescenta que uma vitoria trabalhista ou um hung parliament ameaça a estabiliadade da libra e pode causar caos .
Acadêmicos acreditam que o hung parliament pode enriquecer o sistema democrático britânico.
Eu não acho que um governo minoritário representa uma ameaça para o sistema democrático. Ao contrário, isso significa que o governo terá que prestar mais atenção no desejo e pedidos dos membros do parlamento afirmou Richard Grayson, professor de política britânica e irlandesa da Goldsmiths University of London.
Dando voz ao coro, o jornalista do The Guardian Timothy Garton Ash acredita que o eleitorado britânico não pode se deixar intimidar por especulações, e que, se bem organizado, não existe razão para que um parlamento minoritário produza um governo fraco e incapaz de consolidação fiscal:
Um parlamento minoritário é, na verdade, um parlamento forte, já que o Executivo é mais dependente do Legislativo.
Já para Judith, se administrado numa base de declarações claras e transparentes de como partidos menores podem ser incorporados numa coalizão ou pacto político (o que não dá aos partidos menores posições parlamentares), o hung parliament pode trazer muitos benefícios.
Se representar um acordo total entre uma série de plataformas políticas populares, então, isso pode ser benéfico.
Uma chance e um desafio para os conservadores
Depois de amargar 13 anos na oposição como um partido cruel, privilegiado e fora da realidade dos cidadãos britânicos reflexos da era Thatcher esta é certamente a tentativa mais bem sucedida dos conservadores de ocupar a Downing Street.
A missão de David Cameron, porém, não é das mais simples, já que a distância entre os dois partidos é imensa. O governo Trabalhista atualmente controla 345 cadeiras, o partido Liberal-Democrata tem 63; e 45 cadeiras pertencem a partidos menores. Para vencer as eleições previstas para 6 de maio, o partido Conservador terá que adicionar 130 distritos eleitorais ao seu atual número de cadeiras (193).
E para ganhar o coração desses 130 distritos eleitorais, Cameron terá que provar que veio para ficar. Apesar de sua popularidade entre a ala jovem e o eleitorado feminino, tem enfrentado constantes acusações sobre o seu passado privilegiado, assim como sua falta de substância política. Para completar o cenário, um escândalo de despesas em 2008 foi a gota d'água para alienar futuros aliados, e certamente manchou a reputação do partido.
Nadando contra uma maré de especulações sobre quem e o real Cameron atrás das câmeras, o líder conservador terá que usar toda a diplomacia para conseguir o apoio de partido menores numa possível coalizão.
Apesar de uma coalizão não ser totalmente necessária o pacto feito entre Trabalhadores e Liberais (em 1997) assim como o acordo assinado entre os Conservadores e os Ulster Unionists em 1995 permitiu uma administração de sucesso Cameron não vai arriscar perder a sua melhor chance de colocar os conservadores de volta no poder.
A coalizão enviaria a mensagem de um governo unido, forte, estável e permanente.
Os próximos meses serão recheados de surpresas. Ainda amargando o gosto de umas das piores recessões desde os anos 60, e alienados por um sistema político que só tende a ouvir seus representantes na temporada eleitoral, os britânicos estão à procura de um líder que traga uma onda de confiança.
Com o debate televisivo confirmado para as próximas semanas esse será o primeiro debate eleitoral na história britânica as cartas estão na mesa. Pegando carona na onda Obama, o líder que demonstrar uma intenção honesta de abraçar modernidade e mudança para colocar a Inglaterra novamente no mapa da liderança mundial, terá chances de mudar não só o curso das pesquisas eleitorais, mas também a história de um país imerso em tradições e uma dominação política trabalhista-conservadora.