Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil
RIO - A propagação de doenças infecciosas pode ser, em breve, o próximo desafio para ações humanitárias no Haiti. A eclosão de epidemias é praticamente inevitável já é um consenso entre especialistas. Por isso, é comum ver equipes de socorro, moradores e até integrantes de forças de segurança com máscaras de proteção, como as usadas na epidemia de gripe suína.
Doenças como tuberculose, meningite e hepatite A podem ser transmitidas pelo ar, quando uma pessoa portadora dessas enfermidades expele gotículas de saliva que podem ser inaladas por alguém sadio, explica o infectologista da UFRJ Edmílson Migowski.
As máscaras servem para proteger as pessoas feridas pelo desastre, quando ocorrem as operações de resgate, ou quando é feito o atendimento médico.
Como as pessoas estão se alimentando mal, elas ficam mais suscetíveis a contrair doenças, até mesmo dos profissionais de saúde. E, no caso de pessoas com ferimentos, o risco é ainda maior diz o epidemiologista da UFRJ Roberto Medronho.
As máscaras são usadas também por causa do forte odor provocado pela putrefação de corpos humanos, de animais e alimentos estragados. Mas, segundo Edmílson Migowski, a matéria orgânica em decomposição não libera gases tóxicos nem bactérias através do ar:
O risco maior de contrair doenças é com pessoas vivas.
Num manual de 2004 sobre os corpos abandonados numa situação de catástrofe, como um terremoto, a Organização Mundial de Saúde qualifica de mito a ideia de que cadáveres insepultos são sinônimos de epidemias. A situação seria diferente caso se tratasse de corpos de pessoas dizimadas por uma doença.
Mas há outros riscos em relação aos corpos. Especialistas dizem que é preciso escolher bem os locais de sepultamento para evitar contaminação do lençol freático pelas bactérias dos corpos em decomposição. O uso de cal tem ação antibactericida.
A água é o meio de contágio principal em situações de desastre natural. O consumo de água não tratada traz o risco de surgirem doenças como parasitoses que atacam o sitema digestivo. Outro risco é a poliomielite.
Além da escassez de água potável, o colapso do saneamento básico é um combustível para a eclosão de surtos de doenças, segundo Medronho, da UFRJ. São desde doenças provocadas por roedores, como a leptospirose, a varíola, sarampo, tétano e meningite.
A vacinação contra doenças como hepatite A, tétano, pólio e meningite é fundamental para conter epidemias.
Como se trata de um país tropical, o risco de doenças transmitidas por mosquitos, que já era grande, aumenta nestes casos, uma vez que há muita água empoçada nos escombros. Por isso, surtos de dengue e malária são prováveis.
Até as ações médicas trazem risco de contaminação. Segundo a Unicef, os hospitais de campanha estão sobrecarregados, e é comum haver acúmulo de lixo hospitalar.