Haiti: tragédia acirra preconceito contra o vodu

Evelyn Soares, Jornal do Brasil

RIO - As manifestações do cônsul do Haiti no Brasil, Gerge Samuel Antoine, e do pastor Pat Robinson, nos Estados Unidos, colcando a culpa pela tragédia no vodu, retratam o preconceito que existe contra a religião praticada por uma minoria de haitianos.

Crença sincrética que une elementos do catolicismo romano e das religiões africanas, o vodu foi levado para a ilha de Hispaniola por escravos da costa da Guiné.

Como em todas as religiões da África, a morte não existe, porque tudo na natureza é unido pela força vital - analisa Laura Padilha, professora da pós-graduação em letras com literaturas africanas de língua portuguesa da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Assim como a umbanda e o candomblé são importantes expressões da religiosidade africana no Brasil, o vodu também o é no Haiti. De acordo com a tradição, pedidos e agradecimentos são feitos ao deus Bondje (bom deus, em tradução livre do francês) e aos ancentrais de cada família.

Edna Santos, coordenadora do Programa de Estudos e Pesquisa sobre Religiões da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), diz que, após a preconceituosa declaração do cônsul, a Comissão Contra a Intolerância Religiosa redigiu um manifesto em repúdio e questionando como um homem que está por tanto tempo em um alto cargo diplomático é capaz de fazer uma declaração contra o povo que representa.

O pós-doutor e professor de antropologia da Uerj, José Flávio Pessoa de Barros, explica que essa declaração atesta a raiz católica do representante haitiano. Esse conflito religioso se dá desde a Revolução Negra, em 1791, quando o país se tornou independente

Na tragédia, as divergências espirituais afloram.

Uma série de comportamentos funerários é exigida do clã responsável pelo morto. Não realizá-la resulta em implicações tanto para quem morreu, que fica impedido de ir para as terras ancestrais, como para quem ficou explica o professor.

Este é um momento dramático, pois milhares de famílias estão impossibilitadas de achar seus parentes debaixo dos escombros. A imensa quantidade de mortos anônimos acaba atingindo o imaginário dos seguidores do vodu, abalando assim uma tradição de séculos.