Em carta, Zelaya defende modelo 'liberal pró-socialista' em Honduras

Agência ANSA

TEGUCIGALPA - O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, divulgou um comunicado na noite dessa terça-feira no qual defende a adoção de um modelo baseado em um "liberalismo pró-socialista" e sugere a desmobilização das Forças Armadas por terem apoiado o golpe que o destituiu, ocorrido em 28 de junho.

O mandatário, que segue abrigado na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, teve sua carta divulgada pela Rádio Globo, emissora acusada pelo regime de facto de apoiá-lo.

Zelaya leu a mensagem depois da reunião que manteve com o subsecretário adjunto para o Hemisfério Ocidental dos Estados Unidos, Craig Kelly, que está no país para tentar obter um consenso que permita o cumprimento do Acordo Tegucigalpa-San José antes que Porfirio Lobo, eleito em novembro, tome posse como presidente, o que ocorrerá no dia 27.

Na carta, Zelaya afirma que "nada mudou" em Honduras desde que o país conseguiu sua independência, porque "a burguesia ou grupos governantes sempre se acovardaram ante a possibilidade de que o povo se organize para exigir as reformas das quais o país precisa".

Para ele, além disso, a oligarquia hondurenha cometeu um "grave erro" ao apoiar o golpe que o tirou do poder, no ano passado.

"É inevitável o dever de todo hondurenho de desmontar e suplantar a velha superestrutura ideológica que nos oprime, mantém-nos submetidos e explorados", afirma. Para tanto, ele propõe como uma das primeiras medidas a serem adotadas "a desmobilização das forças militares" que dão sustentação a este contexto.

A ideologia desta superestrutura, prossegue Zelaya, deve ser substituída por uma que seja "socialmente compatível com os valores do povo hondurenho, baseada nos princípios de um liberalismo pró-socialista, que abra caminho para uma nova autoridade democrática e popular que deve surgir por meio da consulta popular".

"O atual estado burguês chegou ao fim e entrou em colapso devido aos grosseiros índices de pobreza, injustiça e desigualdade", complementa.

No documento, Manuel Zelaya ainda propõe iniciativas para conduzir o país na direção deste novo modelo, como "a coordenação necessária para que a política monetária e o banco central impulsionem o desenvolvimento da nação, e não do sistema financeiro privado".

"Devemos proibir as entidades ou grupos financeiros de ter participação acionária em empresas alheias à atividade financeira, e também sua participação no controle do capital, investimento ou patrimônio de meios de comunicação, com o objetivo de ter um verdadeiro direito à liberdade de expressão, de imprensa e de pensamento", diz o comunicado.

Referindo-se à polícia, o presidente deposto afirma que, sob as ordens das Forças Armadas, a instituição só serviu para "agredir e torturar o povo", enquanto o Exército "exerceu um ingrato papel de massacrar-nos e convertir-se no guardião da camarilha que governa e usufrui deste país com ambição desmedida".

"Enquanto as Forças Armadas estiverem desempenhando este nefasto papel, não há nenhuma possibilidade de avançar com as transformações sociais em Honduras", ressalta Zelaya.

"Os militares devem voltar a seus quartéis. Se não fizerem isso, o povo hondurenho, a partir deste momento, deve pedir a desmobilização do Exército", argumenta.