20 anos depois, queda do Muro de Berlim é recordada por quem esteve lá

Jornal do Brasil

DA REDAÇÃO - Em 9 de novembro de 1989, veio abaixo o Muro de Berlim, símbolo máximo da divisão das duas Alemanhas, da Guerra Fria e do antagonismo de duas visões opostas de mundo. Naquele dia, depois de 28 anos, o mundo festejou a revolução pacífica dos cidadãos alemães que derrubou o Muro da Vergonha como era chamado o paredão de 45 quilômetros que dividia ao meio a cidade de Berlim, no coração da Europa sem que fosse preciso disparar um único tiro. Mais do que dois Estados, o Muro havia criado duas categorias de alemães completamente diferentes. No dia da derrubada, a inesperada festa de rua dos berlinenses, movida pelo poder popular, culminou, alguns meses depois, na reunificação alemã e no colapso da União Soviética. Para marcar o 20º aniversário deste evento tão determinante para a história da Europa e do mundo, a partir de terça-feira, o JB publica uma série de artigos e reportagens que recontam a história do Muro e as consequências de sua ascenção e queda para o mundo atual.

Me lembrarei por toda a vida

Adam Michnik, editor-chefe da 'Gazeta Wyborcza'

Em 1989, ninguém no mundo antecipava a queda do regime comunista. Quando o presidente americano Ronald Regan (1981-1989) bradou, na Berlin Ocidental, a frase Sr. Gorbachev, derrube este Muro! as pessoas interpretaram aquilo como um exemplo da retórica da Guerra Fria e não como um projeto político realista.

E mesmo assim, o Muro foi derrubado.

Vou me lembrar deste dia pelo resto da minha vida. Eu havia sido convidado para uma conversa com o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha Ocidental, Hans Dietrich Genscher. Estávamos discutindo as perspectivas para os próximos meses. Durante nossa conversa, um assistente entrou na sala e entregou ao ministro um pedaço de papel. Genscher leu o bilhete, olhou para mim e disse: A fronteira do Muro de Berlin foi aberta . Essa foi a conclusão da nossa interessante conversa. Corri para o escritório da Gazeta Wyborcza (o jornal democrático fundado por Michnik e outros jornalistas e ativistas políticos na Polônia) e peguei alguns comentários para serem publicados na primeira página. Eu escrevi que era um ótimo feriado: na perene luta entre homem e arame farpado, hoje o homem havia triunfado e o arame farpado estava derrotado.

Parecia que toda a Polônia torcia pelos alemães, que estavam caminhando rumo à liberdade. Nós ficamos repetindo: Ich Bin Berliner... Ich Bin Berliner (Eu sou berlinense). Para todos os efeitos, a Alemanha Oriental (A República Democrática Alemã, ou RDA) era um Estado comunista, e mesmo assim, era de alguma maneira singular. Tinha um governo tipicamente incompetente movido pela corrupção, vigilância policial onipresente e uma profunda crise econômica. O que era atípico, entretanto, era a existência do outro Estado Alemão democrático e rico e a presença da guarnição soviética no território da RDA. Costumava-se dizer que a Alemanha Oriental não era um país que tinha um Exército, mas um Exército que tinha um país. A RDA não era um país com guarnições soviéticas; era um país para guarnições soviéticas. Essa foi a razão de ser da RDA.

Em 1989, as guarnições soviéticas, que em 1953 haviam salvo o regime da RDA ao oprimir uma revolta dos trabalhadores, recebeu novas instruções. Os novos líderes do Kremlin lançaram a política da Perestroica, de fato, um distanciamento da lógica da Guerra Fria. O líder da RDA, Erich Honecker, se recusou a aceitar a nova política. Seus companheiros costumavam argumentar: Nós deveríamos mudar o papel de parede da nossa casa porque nosso vizinho o fez? . Mas a Alemanha Oriental também não gostava do velho papel de parede. Quando, em 20 de junho de 1989, o Ministro das Relações Exteriores, Gyula Horn, junto com seu homólogo austríaco, cortaram o arame farpado na fronteira entre seus dois países, alemães orientais começaram a passar da Hungria para a Áustria.

Durante a visita de Gorbachev a Berlin em outubro de 1989, as pessoas gritavam Gorby! e cantavam, Nós somos a nação! Depois o slogan mudou para Nós somos uma nação! . O Muro de Berlim caiu na mente dos alemães antes mesmo de realmente ser derrubado, o que aconteceu logo depois.

Em 9 de novembro, Gunter Schabowski, o chefe de propaganda do Partido Comunista da Alemanha Oriental, disse numa conferência de imprensa: Hoje nós tomamos uma decisão que permite que todos os cidadãos da RDA deixem o país por qualquer fronteira . Depois de uma breve pausa, ele acrescentou que a decisão era imediata . Se Schabowski falou sem querer, foi a gafe mais importante e mais bonita da história da Alemanha.

Outros eventos contribuíram. A política do presidente americano Jimmy Carter (1977-1981), que fez dos direitos humanos sua bandeira, começou um confronto que a União Soviética não podia vencer. Nem poderia prevalecer contra a política do presidente Reagan, que desafiou o Império do Mal , levando os soviéticos a uma corrida armada que eles não poderiam vencer. O pontífice João Paulo II também teve um papel importante, mandando a mensagem cristã de liberdade humana contra a doutrina comunista baseada em violência e mentiras. Toda a sequência de eventos levou à nova política de Gorbachev, em que as tropas soviéticas não mais iriam interferir no regime comunista da RDA. Provavelmente ninguém fez tanto pelo mundo quanto este último secretário-geral soviético, apesar de que abolir o comunismo não fazia parte de seus planos.

A queda do Muro de Berlim marcou o fim da fé na utopia comunista e da perpetuação do regime soviético; marcou o fim da punição imposta aos alemães por terem criado o Nazismo e começado a Segunda Guerra; e também marcou o fim da humilhação da Europa democrática, que tolerou a imagem de uma grande cidade torturada dia após dia por arame farpado e torres de vigia.

Mas a derrubada do Muro e o fim do comunismo teve mais de uma faceta. Eu me lembro de uma piada que uma vez ouvi de um de meus amigos alemães. Pouco depois da unificação, um ocidental e um oriental se encontram em Berlim. O ocidental diz: Bem vindo! Somos uma nação . Ao que o oriental responde: Nós também! . Apesar de eu ter me livrado da germanofobia, essa postura ainda ressoa em meus ouvidos, especialmente quando eu vejo o quão facilmente os políticos e intelectuais alemães abandonam reflexões críticas sobre a história do seu país

Apesar da Europa ter mudado bastante para melhor depois da queda do Muro, não se tornou um mar de tolerância e respeito pela dignidade e amor incondicional por seus vizinhos. Nosso continente ainda é cheio de campos minados e ameaças com as quais precisamos lidar. E mesmo assim depois de 20 anos continuo otimista. Por quê? Porque eu não tenho outra opção.

Tradução: André Bacil