Entrevista/Thomas J. Trebat: Crise beneficiou imagem do Brasil

Sérgio Aguiar Matos, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - Thomas J. Trebat é uma das mais importantes autoridades nos Estados Unidos sobre a América Latina e o Brasil. Diretor-executivo do Instituto de Estudos da América Latina e do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Columbia, Trebat considera o Brasil um modelo de desenvolvimento exemplar para os outros países da América do Sul. Segundo ele, o país sabe como balancear questões de mercado e de Estado. Com sua participação confirmada na conferência Brazil and the Future (O Brasil e o Futuro), realizada pelo JB no próximo dia 29 de outubro, na Universidade Columbia, nos EUA, Trebat acredita que o evento irá criar um importante diálogo entre as lideranças da região em torno do Brasil enquanto potência emergente deste século. A partir de hoje, o JB publica uma série de entrevistas com grandes nomes que participarão da conferência.

Quais são suas expectativas sobre a conferência O Brasil e o Futuro? Quais tópicos o senhor está particularmente interessado em debater?

- A conferência é uma das primeiras a lançar um olhar compreensivo e analítico sobre o Brasil, à luz de suas forças e fraquezas, no contexto da grande crise financeira. Eu espero que o evento ascenda um diálogo entre lideranças acadêmicas, empresariais e políticas em torno do potencial do Brasil como uma potência emergente do século 21.

Como o senhor avalia o desempenho político e econômico do Brasil durante a crise mundial?

- Do ponto de vista econômico, o Brasil sofreu uma curta e restrita contração e depois recuperou-se melhor do que qualquer analista poderia prever. O Brasil beneficia-se da diversidade no seu comércio exterior, de seu amplo mercado interno, do ambiente macroeconômico estável, de uma política monetária de incentivo (com taxas de juros menores), e até estímulos fiscais. Politicamente, a crise não afetou a imagem do governo do presidente Lula; nem no Brasil, nem no exterior. Ao contrário, o governo parece ter ganhado prestígio.

Após tanto tempo mirando sua política externa no Oriente Médio, parece que o governo dos EUA passou a dar um pouco de atenção à América Latina. O senhor concorda?

- Eu acho que a América Latina e o Brasil, em particular, realmente não precisam de muita atenção dos EUA neste momento. A despeito da crise em Honduras, por que necessidades os EUA deveriam se envolver nas questões regionais? Será interessante ver como a política externa em relação a Cuba se desenrolará. A violência no México é uma preocupação dos EUA em alguma medida, mas o país parece não estar ajudando o presidente Calderón com tanto empenho. Eu acho que os EUA podem melhor ajudar a América Latina se conseguirem consertar sua própria economia e interromper as guerras que não levam a nada no Afeganistão, Paquistão e Iraque. Isso ajudará a América Latina mais do que qualquer iniciativa diplomática.

Como o senhor descreve o papel do Brasil na América Latina?

- Eu ressaltaria o poder suave do Brasil na região. O sucesso de sua economia e suas políticas públicas reprova aqueles que argumentam que os mercados não precisam de regulação. Igualmente reprova aqueles que pensam que o socialismo é a onda do século 21. O Brasil parece ter conseguido balancear corretamente aspectos de mercado e do Estado e parece que as pessoas estão sendo beneficiadas. Isso é mais importante para a América Latina do que uma suposta liderança do Brasil na América do Sul ou sua vergonhosa intervenção na crise hondurenha. O Brasil está começando a mostrar à América Latina que o progresso pode ocorrer em mais lugares do que apenas no Chile. Isso é uma contribuição significativa.