Arthur Ituassu, Jornal do Brasil
DA REDAÇÃO - Mais de 15 milhões de afegãos, metade da população do Afeganistão, incluindo quase 6 milhões de mulheres, segundo a ONU, estão registrados para votar na próxima quinta-feira, dia 20, nas eleições presidenciais e legislativas do país, o segundo pleito democrático em toda a sua história. Apesar da expectativa, no entanto, que cerca um confronto político de 30 candidatos à presidência, os mais altos índices de violência desde a intervenção militar americana na região em 2001 assombram os eleitores e ameaçam a legitimidade da votação.
Mais de 100 mil soldados estrangeiros e cerca de 175 mil afegãos foram mobilizados para garantir a segurança dos eleitores no pleito. Os rebeldes talibãs conclamaram a população a boicotar a votação e ameaçaram usar da violência contra a eleição. Segundo eles, as presidenciais e legislativas do dia 20 são uma "invenção da força estrangeira opressora".
Nas áreas mais violentas, segundo a ONU, à medida que se aproxima o dia do pleito, cada vez menos gente comparece aos comícios políticos. Também segundo as Nações Unidos, pelo menos nove pessoas morreram nos últimos dias em ataques relacionados às eleições, incluindo quatro pessoas que trabalhavam na campanha de reeleição do presidente Hamid Karzai, favorito nas pesquisas.
Os talibãs transmitiram ameaças pelo rádio em duas províncias e por meio de panfletos em outras duas. Mulheres candidatas e eleitoras particularmente estão em posição mais delicada devido à posição contrária dos talibãs à participação feminina na política. As mulheres são 10% dos candidatos aos assentos nos conselhos das províncias e algumas estão sendo ameaçadas de morte. Uma delas teve a sua casa incendiada.
"A guerra no Afeganistão não está indo bem", escreveu Kimberly Kagan, do Instituto para o Estudo da Guerra, em Washington, em um relatório que fez sobre o conflito na Ásia Central. Segundo Kimberly, apesar de alguns progressos nos setores de educação, saúde e agricultura no país, a situação está longe de ser aquela que os Estados Unidos planejaram para o período pós-intervenção.
Como afirmou recentemente o general americano Stanley McChrystal, comandante das forças de coalizão no país:
- A situação dá sinais de deterioração. O inimigo se mostra altamente capaz, conseguiu ganhar o momento e expandiu suas áreas de atuação. Infelizmente, a violência contra as forças de coalizão está aumentando.
Segundo Kimberly, pelo menos três pontos devem ser revistos na estratégia militar utilizada até agora pelas tropas no Afeganistão. Para a analista, as forças leais a Cartum estão muito dispersas por todo o país, e não seguem o padrão iraquiano, por exemplo, onde os Estados Unidos concentraram cerca de metade das tropas em Bagdá e nos arredores da capital. Além disso, escreve Kimberly, a sequência "organizar-liberar-permanecer-construir" tem sido feita com rapidez excessiva pelas tropas. As duas primeiras fases, por exemplo, têm sido cumpridas no Afeganistão em poucas semanas, enquanto no Iraque a primeira fase leva em média 30 a 45 dias e a liberação, três a seis meses. "O resultado", escreve a analista, "é que as forças da Otan raramente ganham controle permanente sobre regiões disputadas". Ainda, diz o relatório do Instituto para o Estudo da Guerra, "a ênfase das operações militares tem sido constantemente determinada por projetos de desenvolvimento e não para garantir, primeiro, a segurança da população".
"Esses projetos de desenvolvimento são muito importantes no longo prazo, mas são pouco relevantes para os objetivos militares", conclui.
Apesar do contexto negativo, o presidente Hamid Karzai lidera as pesquisas com 45% das intenções de voto. Karzai assumiu no fim de 2001, colocado no poder pelos Estados Unidos, e foi eleito em 2004, em uma eleição presidencial que se tornou vitoriosa com uma campanha que prometia uma nova era ao povo afegão, o que atraiu grande parte da população.
Em Washington, no entanto, Karzai não é visto mais com tanto brilho e chegou a ser alvo de críticas do presidente Barack Obama. Além disso, a violência, a corrupção e a criminalidade no país são o ponto fraco do presidente nesta eleição. O próprio Hamid Karzai sobreviveu a pelo menos quatro tentativas de assassinato, a última em um desfile militar, em abril, na capital Cabul.
O favoritismo de Karzai, no entanto, não garante que ele vença as eleições no primeiro turno. Com 25% das intenções de voto nas pesquisas, Abdullah Abdullah, ex-ministro das Relações Exteriores de Karzai, pode ser o adversário do presidente no segundo turno.
- Karzai tinha tudo nas mãos, mas foi desastroso. Não há nenhuma razão para lhe dar mais cinco anos - disse recentemente Abdullah em um comício.
Esta semana, em um mundo onde a política se consolidou como um instrumento que pretende substituir a violência como mecanismo de disputa, ambas se enfrentarão mutuamente no campo de batalha do Afeganistão.