China: Caldeirão étnico entra em ebulição nas ruas

Jornal do Brasil

XINJIANG, CHINA - Urumqi, capital da província de Xinjang, no noroeste da China, foi palco nesta terça-feira de novos distúrbios étnicos. Os confrontos levaram autoridades a decretarem toque de recolher para coibir uma manifestação de grupos da etnia majoritária han que buscavam vingar-se da minoria uigur 48 horas depois de um massacre onde 156 pessoas morreram, segundo números oficiais.

Devido à violência na região autônoma, o presidente chinês, Hu Jintao, retornou a Pequim anunciando que não participará do encontro do G-8 na Itália.

Apesar das medidas reforçadas de segurança, milhares de chineses han armados com garrotes, cassetetes elétricos, facões e outras armas percorreram nesta terça-feira as ruas da capital da região autônoma de Xinjiang à procura dos uigures muçulmanos, acusados pelos han de terem causado os protestos de domingo passado, no que foi a pior onde de violência dos últimos 20 anos na China.

O governo não vai fazer justiça, não nos resta outra solução a não ser nos ocuparmos disso explicou um han.

Um grupo de chineses da etnia han teria tentado entrar à força na mesquita de Hantengri, no centro de Urumqi, a fim de atacar uigures refugiados no local. A polícia, contudo, teria bloqueado o acesso à área da cidade onde vivem os uigures muçulmanos e lançaram gás lacrimogêneo contra manifestantes.

Ainda nesta terça-feira, membros da etnia uigur atacaram pessoas perto da estação de trem de Urumqi. Em outra parte da cidade, mulheres com vestimentas muçulmanas também foram às ruas protestar contra a prisão de seus filhos e maridos.

Apesar de ter intensificado medidas para tentar controlar os distúrbios, ao cortar o acesso à internet em alguns setores de Urumqi, internautas conseguiram burlar os censores, com a difusão de imagens e vídeos da capital publicados em

sites como o Twitter, o YouTube e o Flickr.

Retaliação

A origem dos conflitos étnicos surgiu em Cantão, no sul da China, em junho, quando um grupo de operários uigures foi linchado após ser acusado de ter estuprado duas jovens. No domingo, um grupo de 300 estudantes uigures convocou um protesto em Xinjiang para pedir justiça pelos linchamentos.

Segundo diversas fontes, os estudantes começaram a marchar pacificamente e reuniram milhares de pessoas, mas ao chegar ao bazar de Döng Körkük, outro grupo de uigures violentos começou a atacar pessoas de todas as etnias. No bairro uigur, a versão é de que o Exército atacou todos: uigures, han e o resto das minorias de Urumqi.

Como o fez durante a revolta étnica no Tibete em 2008, Pequim culpou elementos externos por incitar a violência. Desta vez a candidata ao Nobel da Paz de etnia uigur Rebiya Kadeer, exilada nos EUA desde 2005 foi a acusada.

As acusações são falsas, não organizei os protestos, nem convoquei ninguém para se manifestar assinalou a empresária nos EUA, em entrevista na qual reiterou sua condenação ao uso excessivo da força tanto por parte do governo chinês como de um número de uigures.

A alta comissária das Nações Unidas Navi Pillay, a presidente da Câmara de Representantes dos EUA, Nancy Pelosi e porta-vozes da União Europeia aconselharam o governo chinês e a população uigur ao diálogo e pediram aos dirigentes locais que tenham moderação ao prevenir novos protestos.