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100 dias de Obama: o grande desafio do presidente

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Gabriel Costa , Jornal do Brasil

RIO - Barack Hussein Obama assumiu a Presidência dos Estados Unidos com a responsabilidade de encarar o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cujas metáforas em referência à crise já tornaram-se célebres definiu como um enorme pepino o maior colapso econômico mundial em 80 anos, cuja origem foi justamente o sistema financeiro da potência americana.

O primeiro presidente negro da História da nação assumiu o compromisso de, como o próprio definiu em discurso recente, construir uma casa sobre pedra, e não sobre areia , uma citação do Sermão da Montanha em referência aos lucros baseados em especulação imobiliária, limites de crédito estourados e bancos com alavancagem exagerada que acarretaram no marco zero da crise, a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers em setembro do ano passado.

O economista Antonio Carlos Lemgruber, ex-presidente do Banco Central do Brasil, prefere dividir a atuação de Obama até aqui entre os cerca de 50 dias até o início de março durante os quais o presidente agiu lentamente, segundo o especialista e os outros 50 desde então.

Acho que ele aprendeu economia nesse tempo brinca Lemgruber, colaborador do blog RGE Monitor, de Nouriel Roubini, economista que previu a crise financeira em 2006, em palestra na sede do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O especialista manifesta surpresa em relação ao fato de que Obama tem recebido críticas não apenas da direita conservadora, como era de se esperar, mas também de representantes da esquerda, como Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia no ano passado. Lemgruber acredita que essa oposição inesperada prejudique a execução da agenda econômica do presidente, pois cria incerteza no mercado.

Isso é consequência desse fio da navalha em que Obama se meteu, desagradando às pontas e buscando a aprovação do grande centro diz o ex-presidente do BC.

Já Reinaldo Gonçalves, professor de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alinha-se entre os críticos que admitem o discurso sólido de Obama, mas chamam atenção para a complacência do mesmo na adoção de políticas econômicas de maior impacto. Gonçalves acredita que o presidente lançou mão apenas de medidas padrão de enfrentamento de crise , sem desviar da metodologia que o próprio George Bush adotou em seus últimos meses no governo.

O que Obama fez foi ampliar recursos e detalhar medidas, mas, em linhas gerais, não inovou avalia o professor.

Controvérsias

A suposta falta de ousadia do governo Obama, discutida à exaustão em ocasiões como a aprovação do plano de estímulo de US$ 789 bilhões, a questão do orçamento e do déficit recorde estimado US$ 1,75 trilhão em 2009 e as intervenções nos mercados imobiliário e de crédito, foi posta à prova quando vieram à tona os US$ 165 milhões em bônus que a seguradora AIG, que precisou de US$ 170 bilhões do governo para não quebrar, distribuía a centenas de funcionários.

Quando o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, concluiu que não poderia impedir o pagamento dos bônus, Obama foi orientado por seus conselheiros a criticá-lo publicamente. O Congresso aprovou um imposto de 90% sobre o total, e, na tempestade de críticas a Geithner que se seguiu, Obama mostrou-se decidido e não pediu a demissão do secretário, apesar da pressão para fazê-lo.

Naquele momento Obama mostrou-se um presidente forte analisa Lemgruber.

Embora a atuação do Federal Reserve (Fed, o BC americano) não possa ser atribuída ao presidente, especialistas concordam que há uma convergência de pensamentos no alto escalão do governo. E alertam que após os turbulentos 100 primeiros dias, começa o verdadeiro desafio de Obama: manter a aprovação do público quando o fascínio da novidade passar.