Osmar Freitas Jr, JB Online
NOVA YORK - O candidato Barack Obama foi presciente quando disse em discurso:
Dividiram-nos em Estados vermelhos e azuis, mas o nosso país é roxo.
Os tons violáceos, segundo pesquisadores de opinião pública e analistas destes dados, vão cobrir o território nacional em 2008. Espera-se que 120 milhões de cidadãos compareçam às juntas eleitorais, numa participação recorde. Estão, como em 2004, impulsionados pelo medo. Os ataques terroristas do passado foram substituídos, no imaginário público, pela crise econômica. E esta troca, além de moldar novas prioridades e escolhas, serve de motor da motivação exacerbada.
O carro-chefe nestas eleições era o desejo de acabar com o governo Bush observa o analista político Brian Olden, da Associação Americana de Institutos de Pesquisas de Opinião Pública. Quase 90% dos americanos estão insatisfeitos com o presidente. Votar, para quem quer que fosse, significava colocar um fim nesta administração. Isso, por si só, já foi motivo de aumento na participação do eleitorado. Mas antes das urnas veio a crise econômica, o que deu novo impulso para a votação. Os cidadãos sabem que estarão escolhendo o futuro gerente da casa e querem alguém que interrompa a hemorragia em suas carteiras.
Além do fim da era Bush e do pânico econômico, analistas concordam que outros incentivos foram jogados no balaio de gatos do universo de eleitores americanos. Os segmentos que tiveram maior crescimento nesta equação foram os de jovens entre 18 e 29 anos e de negros. Os primeiros formam um exército de 6 milhões com títulos novos. Trata-se de crescimento de 20% sobre a amostragem do mesmo grupo em 2004. Os outros eleitores de grande peso, vindos das comunidades afro-americanas, devem ter participação de 70%, em comparação com os 58% que votaram em 2004, perfazendo recorde histórico de ida às urnas para esta população. Essas inclusões deram 60% de tendência de voto democrata, contra 40% de republicanos neste ano.
O catalizador destes votos é o democrata Barack Obama. Para os negros ele é a escolha óbvia, e vai colher 98% desses votos prevê Oliver Baldochi, do Laboratório de Pesquisas de Opiniões da Universidade da Carolina do Sul. No caso dos jovens, o senador de Illinois montou estrutura formidável de participação de eleitores entre 18 e 29 anos. Ele os transformou em militantes: são pessoas que trabalham como registradores de novos eleitores, cabos eleitorais que tentam reverter votos ou movimentar a máquina que vai buscar gente relutante no dia das eleições. Foram também responsáveis pela enorme rede partidária criada a partir da internet.
A máquina eleitoral de Obama roubou uma página do manual de operações políticas do Partido Republicano. No final dos anos 90, os republicanos aperfeiçoaram métodos de gestação de movimentos de base. Com isso, formaram um enorme contingente fiel aos princípios conservadores, disposto a mostrar sua força nas urnas. Os democratas, depois de perderem a maioria no Congresso e a Casa Branca em várias eleições, decidiram contra-atacar usando o mesmo princípio de organização. O partido como um todo participou desde a arregimentação, mas foi Barack Obama quem fez o melhor trabalho e lucrou com isso.
Os republicanos sob Bush deixaram de cuidar das bases partidárias e dos movimentos comunitários, a partir da eleição de 2004. O presidente não poderia mais se eleger, e não fez força para manter o capital do partido diz Milton Sherman, pesquisador de opinião pública do Partido Republicano na Carolina do Norte. Para complicar ainda mais a situação, o perfil dos currais eleitorais republicanos, os chamados Estados vermelhos, está mudando rapidamente. Na Carolina do Norte houve invasão de gente mais liberal saída dos Estados do nordeste. Há também influxo de imigrantes latinos em todos os Estados, e estes eleitores, que foram de Bush, preferem agora os democratas. Trata-se do segundo segmento étnico em termos de população nos Estados Unidos, e como os jovens e negros, vão decidir estas eleições.