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Em Haia, cela de Karadzic tem espaço e conforto

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Jornal do Brasil

RIO - Ex-líder da Bósnia pode acessar a internet, ver TV e cozinhar livremente

Radovan Karadzic, o ex-presidente sérvio da Bósnia, foi levado na madrugada de ontem ao Tribunal Penal Internacional das Nações Unidas, em Haia, e está ocupando uma cela de 15 metros quadrados semelhante à do ex-presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic.

O ex-líder está detido na unidade especial da prisão e dispõe de mais liberdades do que prisioneiros comuns. Ele pode permanecer mais tempo fora de sua cela, pode cozinhar, assistir à televisão com canais via satélite e receber visitas sem limite de tempo.

Como Karadzic pretende fazer sua própria defesa, ele terá um escritório separado com computador e acesso à internet. Seus advogados disseram que Karadzic está confiante de que provará sua inocência.

Outros 37 prisioneiros, indiciados por crimes cometidos nos conflitos armados na Croácia e na Bósnia, entre 1992 e 1995, e no Kosovo, em 1999, estão dividindo a cela com ele.

Karadziv e seu comandante militar, Ratko Mladic, foram acusados de genocídio durante o cerco a Sarajevo e do massacre de 8 mil homens muçulmanos bósnios em 1995, na cidade de Srebrenica.

Karadzic tirou minha vida, ele roubou minha juventude, ele roubou tudo disse Edna, uma mulher que tinha 19 anos quando sérvios bósnios começaram seu cerco de 43 meses à capital. Edna, que preferiu não divulgar seu sobrenome, foi ferida por uma granada e hoje é deficiente física.

Bombas e granadas choviam na cidade diariamente, água e energia foram cortadas, e as pessoas viviam da escassa ajuda humanitária. Segundo os dados mais recentes, 14.300 pessoas foram mortas durante o cerco. Muitos levaram tiros enquanto buscavam alimento.

Tinha uma ponte que precisávamos atravessar para conseguir pão ou água. Toda vez que um de nós saía de casa, nos despedíamos como se não fossemos nos ver mais lembrou Edna.

A guerra destroçou a identidade multicultural da Bósnia, separando comunidades que falavam a mesma língua e compartilhavam costumes. Centenas de milhares de pessoas se tornaram refugiados e culpam Karadzic por isso.

Demagogos populistas, motivos históricos e antigas rivalidades foram culpados pelo ódio desencadeado. Mas para aqueles que sobreviveram, o sentimento ainda é difícil de entender.

Munira Subasic ainda se lembra o 11 de julho de 1995, quando sérvios bósnios tomaram a cidade, separando os homens das mulheres.

Eles arrancaram meu filho dos meus braços. Puxavam de um lado, eu de outro. Foi uma batalha de vida ou morte. Subasic nunca mais voltou a ver o filho ou o marido.

Sem história oficial desde 1990 - uma omissão deliberada por parte das autoridades para evitar tensões étnicas - muçulmanos bósnios, sérvios e croatas ainda se estranham e cada um tem a sua própria versão da guerra.