Jornal do Brasil
RIO - Carta de tribunal religioso proíbe mulher e filho de fugirem de homem que a espanca.
A paranaense identificada como Nariman O. C., de 21 anos, e seu filho de cinco anos foram impedidos de voltar ao Brasil pelo aeroporto de Beirute. Ambos estão proibidos de deixar o Líbano porque a carta de um tribunal religioso de Baalbek, com a ordem, é considerada legal pelas autoridades de imigração.
Segundo a BBC Brasil, a ordem partiu do Hezbollah. No entanto, o consulado brasileiro em Beirute confirma apenas que a carta é assinada por um clérigo xiita.
Nariman está no Líbano desde o começo deste ano, mas tentava fugir do marido, o libanês Ahmad Holeihel um simpatizante do Hezbollah que a agride. Sua família, no Paraná, enviou uma passagem de avião Beirute-Roma, de onde depois ela voltaria para o Brasil. A tentativa frustrada de fuga aconteceu no dia 21, quando a mulher, já no aeroporto, foi informada pelas Forças de Segurança Interna (FSI) de que não poderia embarcar por causa do documento e que nada podia ser feito.
O aeroporto de Beirute principal porta de entrada e saída de estrangeiros no país é alvo de disputa política entre o Hezbollah e o governo do Líbano. Atualmente, a segurança do aeroporto está a cargo do grupo xiita.
Desde então, Narimam está na sede da ONG Kafa, que cuida de mulheres vítimas de violência doméstica. O cônsul Michael Gepp afirma que a situação da brasileira, que também está grávida de quatro meses, é bastante complicada. Para reverter a ordem da carta, ela precisa provar, com testemunhas, que sofre agressão do marido. O advogado que a representa vai trabalhar com o argumento de violência corporal, mas Gepp acredita que o caso pode demorar anos para ser resolvido.
O governo não existe. Essa é uma decisão de um tribunal religioso. O marido dela é muçulmano. Aqui as leis religiosas se impõem às leis do país. O Estado libanês jamais vai contrariar uma decisão de um tribunal religioso explicou o diplomata.
Nariman contou ao cônsul que Holeihel é traficante de drogas e que a espancava sempre que está sob efeito de entorpecente. Também a ameaçou de morte, o que inclusive foi ouvido pela criança de cinco anos.
Quando conheci esta senhora, o filho me disse: Papai botava uma faca na barriga da mamãe e dizia 'eu vou abrir sua barriga, vou te matar junto com essa criança que você carrega' - contou Gepp.
O consulado brasileiro em Beirute comunicou o caso ao Itamaraty e agora espera uma posição do governo libanês.
Não sei qual a queixa contra mim que me impede de voltar ao Brasil, mas já conversei com o advogado para ver minhas opções legais disse Nariman à BBC.